Coronéis da PM-SP citados em investigação sobre lavagem de dinheiro para o PCC
Três coronéis da Polícia Militar de São Paulo aparecem em relatórios da Promotoria que embasaram a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21).

Operação Janus aponta coronéis da PM em rede suspeita de lavar dinheiro do PCC
Três coronéis da Polícia Militar de São Paulo foram citados nos relatórios da Promotoria que embasaram a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21), segundo reportagem de www1.folha.uol.com.br. A operação mira um grupo suspeito de movimentar valores ilícitos em favor do PCC (Primeiro Comando da Capital) e de participar dos chamados tribunais do crime.
A decisão judicial que autorizou 18 prisões e buscas e apreensões aponta que integrantes do núcleo suspeito de lavar dinheiro "demonstraram possuir influência sobre policiais civis e militares". Os policiais citados não são investigados formalmente e não foram alvos diretos da operação, que se concentra nos suspeitos de crimes financeiros. As provas deverão ser compartilhadas com a Justiça Militar ao término do inquérito.
Ex-comandante-geral mencionado em conversas interceptadas
Entre os militares citados está o coronel José Augusto Coutinho, que exerceu o cargo de comandante-geral da PM paulista até abril deste ano e atualmente está na reserva. Conforme a Justiça, Coutinho foi mencionado "no contexto da figura do operador financeiro Amjad Ahmad", apontado como alguém que presta serviços de "troca de TED por dinheiro vivo" e tem conexões com integrantes do PCC.
O ex-comandante teria aparecido em conversas entre operadores financeiros, embora a decisão judicial não detalhe o conteúdo dessas trocas. Até a deflagração da operação desta terça, a investigação não havia identificado nenhum outro elemento relacionado a Coutinho além dessas menções em comunicações interceptadas.
A defesa de Coutinho declarou não ter tido acesso à investigação, mas "reafirma a integridade e a correção com que o coronel Coutinho sempre exerceu suas funções" e afirmou estar "certa de que, no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte".
O nome de Coutinho já havia sido citado anteriormente em manifestação da Promotoria de Justiça Militar, que apontou indícios de que o ex-comandante-geral pode ter prevaricado ou condescendido com comportamentos criminosos. Segundo aquela apuração, ele teria deixado de determinar a investigação de vazamentos de operações e de informações sigilosas ligadas a investigações contra o PCC, mesmo após ter sido alertado sobre o problema. Na ocasião, a Promotoria não apontava relação direta entre o oficial e a organização criminosa.
Coronel na reserva participava de grupo de WhatsApp com suspeitos
O coronel Luiz Carlos Pereira Martins, na reserva desde 2019, integrava um grupo de WhatsApp com suspeitos de lavagem de dinheiro, de acordo com a Promotoria. O grupo era denominado "Aniversário general" e permaneceu ativo ao menos até 21 de novembro de 2023.
"Destaca-se a participação de ambos em grupo de WhatsApp denominado 'Aniversário general', ativo ao menos até 21 de novembro de 2023, no qual eram enviadas mensagens de caráter pessoal e social, inclusive relacionadas a eventos e celebrações, evidenciando relação de proximidade para além de contatos meramente ocasionais", diz a decisão judicial da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.
O vínculo entre Pereira Martins e os investigados se manteve mesmo após estes terem sido alvo da Operação Fractal, em 2022. O documento judicial registra ainda que o coronel "se dispôs a ajudar os investigados e intermediar contato com autoridades, o que reforça o grau de proximidade verificado".
A reportagem não identificou quem representa a defesa de Pereira Martins.
Terceiro coronel consta em planilha de operador financeiro
Um terceiro militar, identificado apenas como coronel Patrício, consta em uma planilha como cliente de um dos operadores financeiros investigados, conforme o documento judicial. Em operação anterior, uma anotação indicando pagamento de R$ 1 mil em favor de Patrício foi encontrada na residência de um dos investigados.
Esquema trocava dinheiro do tráfico por transferências bancárias
Segundo as investigações, o grupo atuava na troca de transferências eletrônicas por valores em espécie — e vice-versa. Os próprios suspeitos se referiam ao esquema como "troca de TED por vivo", de acordo com as autoridades.
O funcionamento era o seguinte: quem detinha dinheiro em espécie proveniente do tráfico entregava as cédulas ao grupo e recebia, em troca, uma transferência bancária já inserida no sistema financeiro com aparência lícita, sustentada por alguma justificativa econômica. Esse processo ocorria por meio de empresas de fachada.
Uma das mensagens interceptadas pela investigação registra que os suspeitos conversaram sobre a necessidade "de recursos financeiros para 'pagar a polícia'", segundo a decisão judicial. O diálogo ocorreu entre dois suspeitos de prestar serviços financeiros ao PCC.
Operação é desdobramento de investigações anteriores do Gaeco
A Operação Janus é um desdobramento das operações Recidere, Bazaar e Sallus et Dignitas. As investigações são conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), braço especializado do Ministério Público voltado ao enfrentamento de organizações criminosas.
A investigação anterior — que agora converge para a Janus — mirava subordinados de Coutinho na Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), tropa de elite da PM, durante o período de 2020 a 2021, ainda na gestão passada.
Source: Google News BR — São Paulo