Crime organizado troca cocaína por votos em eleições brasileiras de 2024

PCC, Comando Vermelho e milícias financiam candidatos e coagem eleitores. No Rio, 53 locais de votação foram mudados por ameaças em 2024.

Crime organizado troca cocaína por votos em eleições brasileiras de 2024

PCC, milícias e tráfico: a infiltração do crime nas urnas brasileiras

Conforme reportagem do g1.globo.com, relatos de compra de votos multiplicam-se pelo Brasil em anos eleitorais, com um agravante inédito: grupos como o PCC, o Comando Vermelho e milícias passaram a financiar candidatos com dinheiro oriundo do tráfico e de roubos, transformando a corrupção eleitoral em instrumento do crime organizado.

"Esse fenômeno já acontecia e agora está saltando aos olhos", afirma Nathalia Mariel, procuradora da Procuradoria-Geral Eleitoral. "Ele afeta não só a compra de votos em si, mas na escolha de candidatos, na possibilidade de as pessoas exercerem o seu direito de votar efetivamente de maneira livre."

Investigações da Polícia Federal sobre corrupção eleitoral cresceram quase 20 vezes desde 2016. Em dez anos de combate à corrupção eleitoral, a PF apreendeu R$ 43 milhões.

Rio de Janeiro: coação e transferência de locais de votação

Em territórios dominados pelo crime organizado, o eleitor que vende o voto torna-se refém. No Rio de Janeiro, a gravidade da situação levou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a tomar medidas extremas: nas eleições de 2024, o endereço de 53 seções eleitorais foi alterado para proteger eleitores de ameaças e coações. Para 2026, o tribunal já identificou ao menos 20 zonas eleitorais que precisarão mudar novamente.

O desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TRE-RJ, sublinha que o sistema eletrônico de votação é seguro e que o voto é secreto, mas reconhece que o crime atua antes da cabine. "Já tivemos casos em que o traficante ou o candidato apoiado pela milícia estava adentrando no local de votação, ameaçando o eleitor", afirma o magistrado.

O caso de Belford Roxo (RJ) ilustra essa conexão entre agentes do Estado e o poder paralelo. O policial militar Michel Maia, cabo eleitoral do candidato Dinho Resenha, foi flagrado em escutas ameaçando eleitores e relatando pagar entre R$ 50 e R$ 100 por voto. Ambos foram condenados por corrupção eleitoral. Dinho é suspeito de ligação com milícias. A defesa de Michel Maia informou que aguarda julgamento de recurso e que a condenação ainda não é definitiva. A defesa de Dinho Resenha afirmou que as acusações não são verídicas, que não há provas suficientes e que a inocência será comprovada após o esgotamento dos recursos cabíveis.

Cocaína como moeda eleitoral em Santa Catarina

A infiltração do crime nas eleições não se restringe às grandes metrópoles. Em Timbé do Sul (SC), uma investigação de tráfico de drogas revelou um esquema em que cocaína era utilizada como pagamento por votos — um caso descrito como inédito pelas autoridades locais.

"Foi a primeira vez, em 15 anos como delegado de polícia, que nós conseguimos verificar uma compra de voto com cocaína, com droga", afirma o delegado da Polícia Civil Lucas Fernandes da Rosa.

O celular apreendido do traficante Claudiomir da Silva detalhou a negociação: fotos do título de eleitor eram enviadas e trocadas pelo equivalente a R$ 50 pagos em "moeda branca" — gíria para a droga. Um eleitor confessou à polícia ter enviado a foto do documento e recebido a mercadoria em troca.

O candidato beneficiado, Sadi Vieira, se elegeu vereador, chegou a presidir a Câmara Municipal e foi condenado por corrupção eleitoral apenas no último mês de seu mandato, em 2024.

Crimes "herméticos" dificultam investigações

Promotores explicam que apurar esses delitos é particularmente complexo por ocorrerem em círculos fechados, onde o medo impede testemunhos. "É um círculo muito próximo. Você imagina como é que essas pessoas vão eventualmente testemunhar com segurança?", questiona a procuradora Nathalia Mariel.

O promotor Guilherme Franchi alerta para as consequências que vão além do processo penal: o voto vendido hoje reflete na falta de remédios, professores e merenda escolar amanhã, criando um ciclo de degradação dos serviços públicos. Para especialistas, a conscientização do eleitor é apontada como peça central para que o voto se torne instrumento de melhoria da qualidade de vida.

Para aqueles que aceitaram a troca, o sentimento que prevalece é o arrependimento. "Arrependimento até hoje é grande. No fim eu peguei, me incomodei e tô me incomodando por causa disso", relatou um eleitor condenado em Santa Catarina.

Source: Google News BR — Crime