Polícia Federal investiga Banco Master por suspeita de fraude com precatórios

A PF apura desde junho do ano passado transações suspeitas com precatórios e direitos creditórios envolvendo o Banco Master, presidido por Daniel Vorcaro.

Polícia Federal investiga Banco Master por suspeita de fraude com precatórios

Banco Master sob investigação federal por suspeita de fraude em transações milionárias

A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o Banco Master após denúncias apresentadas pela gestora de recursos Esh Capital. Conforme noticiou o estadao.com.br, as apurações correm desde junho do ano passado na 8ª Vara Criminal Federal de São Paulo e envolvem suspeitas de transações fraudulentas com precatórios e direitos creditórios.

O processo, com quase 900 páginas, descreve em detalhe os supostos crimes praticados pela instituição presidida por Daniel Vorcaro. A Esh Capital é conhecida no mercado financeiro por uma postura "ativista" — jargão usado para descrever investidores que apostam em empresas em dificuldades financeiras para forçar mudanças de gestão e valorizar suas ações.

Disputa entre gestores alimenta as denúncias

As acusações ganharam contorno a partir de uma disputa entre a Esh Capital e o empresário Nelson Tanure em torno da construtora Gafisa. A gestora levantou uma série de alegações, que vão desde o suposto controle exercido por Tanure na Gafisa e sua participação no Banco Master, até a manipulação de mercado por meio de fundos de investimento.

Vladimir Timerman, dono da Esh, e Tanure são rivais declarados e travam disputas em múltiplas frentes. Recentemente, Timerman foi condenado na Justiça por perseguição a Tanure nas redes sociais. O gestor alega, porém, que buscou os meios legais disponíveis para denunciar condutas que considerava irregulares. Timerman afirma estar impedido judicialmente de se manifestar sobre Tanure e Gafisa. Tanure não respondeu às solicitações de comentário.

O Banco Master, por sua vez, afirma que todas as suas operações "foram e são constantemente submetidas a verificação por meio de auditorias internas e externas, de forma independente, certificando a robustez, seriedade e transparência das informações aos órgãos de controle".

Fundo Amazonita: compra e revenda de precatórios no mesmo dia

Um dos episódios que chama atenção no inquérito envolve o fundo de investimento Amazonita FDIC NP, administrado pela Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), de Maurício Quadrado. Quadrado tornou-se sócio do Banco Master em 2021 e deixou a sociedade em 2024. Nem a Trustee nem Quadrado responderam aos pedidos de comentário.

Segundo a Esh Capital, em 31 de julho de 2020 o Amazonita desembolsou R$ 136,5 milhões para adquirir precatórios. No mesmo dia, vendeu mais da metade dos papéis ao Master. Cinco dias depois, transferiu o restante ao banco. O que tornaria as operações suspeitas são os preços praticados: a gestora aponta que o Master pagou R$ 320 milhões por títulos que o Amazonita havia adquirido menos de uma semana antes por menos da metade desse valor — um ágio de 125%.

A PF intimou o banco a explicar a operação. Em resposta, o Master nega ter pago R$ 320 milhões pelos títulos e enquadra a transação como uma "troca de direitos creditórios". Na versão da instituição, ela transferiu ao Amazonita um percentual de direitos creditórios de que dispunha e recebeu em troca títulos de valor equivalente. O único desembolso efetivo teria sido de R$ 10 milhões — um pagamento adicional ao fundo, em razão de o Amazonita ter ficado com papéis de maior risco. As apurações prosseguem.

CDBs bilionários e ativos de difícil avaliação

O Banco Master é conhecido no mercado pela estratégia agressiva de emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) para financiar suas operações. Hoje, a instituição acumula R$ 58,5 bilhões em CDBs e Recibos de Depósito Bancário (RDBs). O montante corresponde a quase metade do patrimônio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade responsável por garantir as aplicações dos investidores, o que gera preocupação no mercado financeiro.

Com os recursos captados por meio dos CDBs, o banco investia em ativos de risco, como os precatórios. Esses títulos dependem de decisão judicial para ser quitados, o que torna incerto tanto o valor quanto o prazo de recebimento.

O Estadão apurou que a instituição tem pelo menos R$ 16 bilhões em precatórios e direitos creditórios — o dobro do número constante nas demonstrações financeiras oficiais. Grande parte desses ativos está alocada em fundos de direitos creditórios cujo valor é de difícil mensuração, formando uma espécie de "caixa preta".

A complexidade chegou a desafiar a própria KPMG, uma das quatro maiores empresas globais de auditoria. Nas últimas demonstrações financeiras do Master, referentes a dezembro do ano passado, a empresa declarou: "Consideramos a mensuração e a avaliação da titularidade dos direitos creditórios e precatórios como um principal assunto para a nossa auditoria, devido à relevância dos montantes e dos julgamentos envolvidos quanto aos aspectos formais e processuais atrelados à titularidade dos direitos creditórios e precatórios, bem como para mensuração do ativo, além das incertezas de suas realizações futuras."

BRB sinaliza interesse em fatia do banco

Em março deste ano, o Banco de Brasília (BRB) surpreendeu o mercado ao manifestar intenção de adquirir 58% do capital total do Banco Master. A Justiça do Distrito Federal, porém, não autorizou a conclusão da compra. O caso segue em aberto enquanto as investigações da Polícia Federal avançam.

Source: Google News PT — Crime (pt)