Policiais federais agem em São Paulo contra rede que enviava brasileiros ao Sudeste Asiático
Mandado de busca foi executado em São José dos Campos e ordem de prisão expedida contra recrutador que atua no Camboja. Grupo enganava vítimas com falsas ofertas de emprego e as obrigava a cometer fraudes virtuais.

Policiais federais agem em São Paulo contra rede que enviava brasileiros ao Sudeste Asiático
Na manhã desta terça-feira (14), agentes da Polícia Federal deram início a uma ação de combate ao comércio ilegal de seres humanos com destino a territórios do sudeste asiático. O alvo era uma quadrilha que seduzia cidadãos brasileiros para trabalharem em locais especializados em aplicações de golpes pela internet.
Em São José dos Campos, região do interior de São Paulo, os policiais executaram um mandado de busca e apreensão em um imóvel. A investigação teve como estopim um comunicado do Itamaraty sobre o resgate de compatriotas que se encontravam em uma localidade na divisa entre o Camboja e o Vietnã. Esses dois países, juntamente com a Tailândia e Mianmar, são conhecidos por abrigarem instalações onde pessoas coagidas executam estelionatos digitais.
De acordo com o levantamento da corporação, o método de captação envolvia anúncios mentirosos de vagas com salários elevados, com a promessa de que todas as custas de viagem seriam arcadas. Contudo, ao pisarem no destino, os enganados eram despojados de seus passaportes, mantidos em cárcere privado e punidos com violência física.
A ação recebeu o nome de Operação Mekong, inspirada no curso d'água que percorre a área e delimita parte do Camboja e do Vietnã. Contra um dos envolvidos — um jovem de 29 anos que se encontra no Camboja desde 2024 — foi decretada ordem de captura, e seu nome consta no cadastro da Interpol. O outro participante, da mesma idade, foi submetido a condições processuais: vetou-se sua saída do território nacional mediante recolhimento do passaporte, impôs-se o dever de se apresentar regularmente ao poder judiciário e vedou-se que permaneça ausente de São José dos Campos por mais de cinco dias corridos sem permissão do magistrado.
Em comunicado, a instituição informou que os indiciados enfrentarão acusação pelo crime previsto no artigo 149-A do Código Penal — tráfico internacional de pessoas — com majorante pelo fato de as vítimas terem sido removidas para fora do país. A reprimenda pode alcançar doze anos de reclusão.
A iniciativa da PF coincide com a recente publicação do Relatório Nacional de Tráfico de Pessoas, que identificou o Camboja como o país mais procurado por brasileiros iludidos por esse tipo de organização. No ano de 2025, foram contabilizados 44 episódios envolvendo aquele destino, de um total de 84 casos nacionais, o que representa elevação de 33% frente ao período anterior.
O estudo, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, ainda revelou que a exploração sexual superou o trabalho escravo como principal motivação por trás dos delitos apurados pela Polícia Federal.
Organismos internacionais voltados à erradicação desse fenômeno ressaltam que as estatísticas governamentais geralmente subestimam a dimensão real do problema, uma vez que boa parte das ocorrências só é descoberta quando o prejudicado consegue sinalizar sua situação.
Em resposta ao cenário, o Executivo brasileiro estabeleceu representação diplomática em Phnom Penh, sede do governo cambojano, em agosto de 2025. Até então, as demandas eram atendidas pela embaixada sediada em Bangkok, na Tailândia.
Fonte: Folha de S.Paulo
Source: Google News BR — São Paulo