Suposta fraude no banco Digimais aumenta pressão sobre o império de Edir Macedo
O Digimais, banco pertencente ao bispo Edir Macedo, é investigado por suposta inflação de ativos. Autoridades congelaram cerca de R$ 670 milhões em bens e dinheiro.

Investigação no Digimais coloca negócios de Macedo sob escrutínio
O banco Digimais, controlado pelo bispo e televangelista Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é alvo de uma investigação das autoridades brasileiras por suposta inflação de ativos para encobrir problemas no balanço patrimonial. Segundo o Google News BR — Crime, mandados foram cumpridos contra executivos da instituição e cerca de R$ 670 milhões em bens e recursos foram congelados.
A assessoria de imprensa do Digimais informou que o banco não comentaria as acusações. A Igreja Universal, por sua vez, divulgou comunicado em seu site em junho afirmando que Macedo não integra a administração da instituição financeira. "A condução das atividades é de responsabilidade exclusiva dos executivos e profissionais legalmente habilitados para responder perante os órgãos reguladores", disse a igreja.
Um banco comprado para servir ao grupo Record
Macedo, de 81 anos, passou a mirar o banco — originalmente especializado em financiamento de veículos — nos anos 2000. Ele fechou a aquisição de 40% da instituição em 2009, mas o Banco Central só autorizou a operação quatro anos depois, pois um decreto presidencial era necessário para permitir que um investidor residente no exterior detivesse participação em bancos brasileiros. Macedo vive nos Estados Unidos há anos.
A ideia inicial era utilizar a instituição para atender aos mais de 15.000 funcionários e fornecedores do Grupo Record à época. Em 2020, ele adquiriu o restante do banco e o rebatizou como Digimais, indicando também pessoas ligadas à Universal para posições de liderança — entre elas o bispo João Luiz Urbaneja, que presidiu a instituição por um período.
O banco enfrentou dificuldades financeiras e precisou de um aporte de capital no início deste ano para cumprir exigências regulatórias. Macedo chegou a negociar a venda do Digimais ao BTG Pactual, mas o acordo preliminar ainda não foi concluído e pode ser revisto.
No começo deste ano, o banco também passou por troca de comando: o filho de Urbaneja, Thiago Rodrigues Urbaneja, foi substituído na presidência por Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras durante governos anteriores do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Paralelo com o escândalo do Banco Master
As acusações contra o Digimais repercutiram no setor bancário brasileiro por sua semelhança com outro caso recente. No ano passado, o Banco Master — instituição muito maior — foi liquidado pelo Banco Central sob alegações de ter fraudado balanços ao longo dos anos. A proximidade entre os dois casos alimentou a atenção do mercado e das autoridades regulatórias sobre a saúde de bancos de menor porte.
O império de Macedo além da fé
As investigações lançam luz sobre o extenso conjunto de negócios que Macedo construiu paralelamente à liderança religiosa. O pastor prega para um público estimado de 10 milhões de fiéis — 7 milhões dos quais estavam no Brasil, segundo dados da própria igreja de 2021.
Além do Digimais, Macedo controla o Grupo Record, dono da segunda maior rede de televisão do país. A empresa, adquirida por ele no final dos anos 1980, registrou R$ 4,3 bilhões em receita no ano passado, conforme balanço publicado na Junta Comercial de São Paulo. Embora boa parte da programação seja secular, a emissora exibe telenovelas produzidas pela Universal e programas com conteúdo elaborado pela igreja.
A Record produziu ainda o filme Nada a Perder, cinebiografia de Macedo lançada em 2018 que quebrou recordes de bilheteria — em meio a acusações de que as vendas de ingressos foram infladas por compras massivas realizadas pela própria instituição religiosa.
Em 2025, Macedo vendeu um apartamento de luxo por US$ 13 milhões na Porsche Design Tower, próxima a Miami Beach, na Flórida — edifício conhecido pela garagem-robô que permite aos moradores subirem seus carros até os andares residenciais.
Influência política e crescimento evangélico
A investigação chega em um momento em que Macedo permanece uma figura central na política brasileira. Ele apoiou Lula ao longo dos anos 2000, mas mudou seu endosso para o campo conservador, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018. O partido Republicanos, um dos de maior peso no Congresso, mantém vínculos com a Universal — seu líder é pastor licenciado e foi vice-presidente da rede de TV de Macedo.
O crescimento da influência evangélica no Brasil acompanha a trajetória da Universal. Cerca de 27% dos brasileiros se identificam hoje como evangélicos, contra apenas um dígito percentual nos anos 1970, quando a Igreja Universal foi fundada. No mesmo período, o catolicismo recuou de mais de 90% para menos de 60% da população, de acordo com o IBGE.
Como símbolo do alcance da Universal, Macedo mandou construir em São Paulo uma réplica do Templo de Salomão, principal local de culto da igreja, onde realiza pregações transmitidas online para milhões de fiéis.
Source: Google News BR — Crime