Furto de cabos de cobre em carregadores elétricos: GNR regista 101 casos e dois homens já condenados
A GNR confirmou à CNN Portugal 101 ocorrências de furto de cabos em postos de carregamento elétrico desde janeiro de 2025, com Setúbal e Lisboa a concentrar a maioria dos casos. O setor estima "centenas" de roubos e dois homens de Almada foram já condenados a pena de prisão.

Cabos de carregamento elétrico cortados pelo cobre: GNR conta 101 furtos, setor fala em "centenas"
Chegam ao posto de carregamento, estacionam, pegam no cabo — e ele já não está. Cortado, ou simplesmente desaparecido. Este cenário, relatado por vários condutores de veículos elétricos em Portugal, está documentado pelas autoridades e preocupa o setor da mobilidade elétrica.
A GNR confirmou à CNN Portugal ter registado 101 ocorrências de furto de cabos em postos de carregamento de veículos elétricos desde janeiro de 2025: 75 casos no ano passado e 26 entre 1 de janeiro e 31 de maio deste ano.
Setúbal e Lisboa concentram a maioria dos casos
Os dados da GNR revelam uma concentração significativa nos distritos de Setúbal e Lisboa. Setúbal acumula 43 ocorrências no conjunto dos períodos analisados, Lisboa 29. A seguir surgem Santarém com 12, Évora com oito, Leiria com cinco, Porto com três e Aveiro com uma.
Só em 2025, Setúbal e Lisboa concentraram 53 das 75 ocorrências registadas pela GNR nesse ano.
Nas redes sociais, multiplicaram-se nas últimas semanas fotografias de postos vandalizados e relatos de cabos desaparecidos. Na Margem Sul, surgem referências a Coina, Sobreda, Corroios, Quinta do Conde, Alcochete, Moita e Alhos Vedros. "Dos quatro cabos de carregamento já só sobram dois", escreveu um utilizador sobre um posto na Quinta do Conde. "Aqui em Alhos Vedros já cortaram todos duas vezes", relatou outro.
O alvo é o cobre dentro do cabo
Os ladrões não estão interessados nos carregadores nem nos veículos. O alvo é o cobre no interior dos cabos. Segundo a Associação Portuguesa do Veículo Eléctrico (APVE), o fenómeno incide sobretudo nos equipamentos de carregamento rápido e ultrarrápido. "O conhecimento mais frequente reporta-se ao furto dos cabos integrados nos postos de carregamento, especialmente em equipamentos rápidos e ultrarrápidos", explicou a associação à CNN Portugal.
A EDP confirmou também os furtos nos seus postos. Questionada sobre os casos relatados, a empresa afirmou que "pontualmente, continua a identificar alguns semelhantes".
O problema não é novo nem exclusivamente português, mas ganhou escala durante 2025. A APVE estima que, "especialmente entre abril e outubro", ocorreram "algumas centenas de roubos de cabos" que afetaram vários operadores — um número muito superior ao registado oficialmente pela GNR.
Impacto vai além da substituição dos equipamentos
Para a APVE, as consequências ultrapassam o custo de substituir um cabo. "Os custos destes incidentes não se limitam à reposição dos equipamentos danificados. Incluem também intervenções técnicas, indisponibilidade temporária dos ativos e recursos que poderiam estar a ser direcionados para a expansão e melhoria da rede."
A Associação Portuguesa de Operadores e Comercializadores de Mobilidade Elétrica (APOCME) reconhece que, sempre que ocorrem situações desta natureza, os operadores procuram repor o serviço "com a maior rapidez possível", mas admite que podem verificar-se "constrangimentos temporários" que obrigam os utilizadores a recorrer a postos alternativos ou a alterar o planeamento dos carregamentos. A associação não avança um tempo médio nacional para a substituição de cada cabo, uma vez que o prazo depende das circunstâncias de cada ocorrência.
Dois homens de Almada condenados a pena de prisão
Entre agosto e outubro de 2025, dois homens, de 28 e 38 anos, residentes em Almada, terão estado envolvidos numa série de furtos em vários concelhos do país. Foram comprovados 94 cabos cortados, com pelo menos nove operadores ou entidades ligadas à mobilidade elétrica afetados.
Detidos em outubro de 2025, os dois arguidos estavam relacionados com mais de 100 furtos nos distritos de Santarém, Setúbal, Leiria, Lisboa e Évora, segundo a GNR. Em julho deste ano foram condenados.
O arguido considerado responsável pela elaboração do plano foi condenado a nove anos de prisão efetiva, pela prática de 15 crimes de furto qualificado. O segundo recebeu uma pena de três anos e seis meses, suspensa durante quatro anos, por oito crimes de furto.
Em 2026, até 31 de maio, a GNR não tinha qualquer registo de detidos ou suspeitos identificados por este tipo de crime.
Para a APOCME, "este tipo de resposta das autoridades policiais e judiciais, célere e assertiva, é importante não só para responsabilizar os autores dos furtos, mas também para reforçar a proteção de uma infraestrutura essencial para a mobilidade elétrica".
Setor descarta tendência de vandalização dos próprios veículos
Uma preocupação transmitida à CNN Portugal por alguns utilizadores prende-se com a possibilidade de os criminosos passarem a visar os próprios veículos elétricos, vandalizando-os ou furtando-os para retirar os cabos de carregamento. As duas associações do setor afastam, por agora, essa hipótese.
"Não dispomos de informação que permita afirmar que exista, em Portugal, uma tendência de furto ou vandalização de veículos elétricos com o objetivo específico de retirar os respetivos cabos de carregamento", respondeu a APOCME. A APVE partilha a mesma posição, afirmando não ter registo de que esse furto constitua "uma tendência relevante ou identificada pelo setor".
A informação acompanhada pelas duas associações aponta sobretudo para o furto dos cabos diretamente instalados nos postos de carregamento.
Setor e autoridades procuram soluções
A APVE defende que a proteção dos postos deve ser encarada "numa lógica semelhante à de outras infraestruturas energéticas e de serviço público relevantes para a transição energética". A associação sublinha que o combate ao fenómeno "não depende apenas dos operadores", sendo necessária articulação com as autoridades e atuação sobre "os circuitos de valorização e comercialização dos materiais furtados". O setor está a tentar tornar os postos menos vulneráveis a este tipo de crime.
Source: CNN Portugal