Pai condenado a 23 anos por matar filho a tiro em Amareleja — pena recorde em Beja
O Tribunal de Beja condenou Sanches Cardas, 68 anos, a 23 anos de prisão pelo homicídio do filho durante disputa por negócio de cavalos. É a pena mais pesada aplicada naquele tribunal desde 2014.

Tribunal de Beja aplica pena recorde por homicídio entre pai e filho
O Tribunal de Beja condenou Sanches Cardas, de 68 anos, a uma pena única de 23 anos de prisão pelo homicídio qualificado agravado do filho mais velho e por posse de arma proibida, conforme relata lidadornoticias.pt. A decisão, proferida na terça-feira por um coletivo de juízes, representa a condenação mais pesada aplicada naquele tribunal por crime de homicídio desde a entrada em vigor da reforma judicial de 2014.
O crime ocorreu na manhã de 10 de junho de 2025, no acampamento do Baldio das Ferrarias, em Amareleja, concelho de Moura. Uma discussão motivada pela compra e venda de um cavalo degenerou em violência envolvendo vários membros da família Cardas. Sanches empunhou uma caçadeira e, a dois metros de distância, disparou contra o filho António Cardas, de 40 anos, causando-lhe a morte.
O coletivo deu como provado que Orlando Cardas, de 35 anos, irmão da vítima e também filho do arguido, instigou o pai durante o confronto com as palavras "dispara nele". Orlando foi condenado a nove anos de prisão por cumplicidade no homicídio qualificado agravado — não a título de co-autoria —, beneficiando ainda da absolvição de mais três crimes que lhe eram imputados.
Juiz critica postura do arguido em tribunal
Antes de ler as penas, o presidente do coletivo dirigiu palavras duras a Sanches Cardas: "o senhor não merece voltar a saborear a liberdade. Esta pena a ser cumprida na totalidade, não lhe resta alternativa de vida." A declaração surgiu em resposta a uma afirmação do arguido na primeira sessão do julgamento, quando disse que "um pai que mata um filho não deve ser preso, deve ser enforcado."
O magistrado criticou ainda a ausência de qualquer sinal de arrependimento ou compaixão pela morte do filho. A versão apresentada por Sanches Cardas sobre as circunstâncias do disparo não mereceu credibilidade ao coletivo, até porque o próprio arguido, numa tentativa de ilibar o filho Orlando, acabou por relatar os factos de forma contraditória com a sua defesa inicial.
A Orlando, o juiz foi igualmente incisivo: "apesar do depoimento concertado de algumas testemunhas, e na ânsia de o absolver, foi o seu pai que contou uma versão que o implicou. Você podia ter evitado isto tudo, mas motivou o seu pai a disparar."
Indemnização de 195 mil euros à família da vítima
O tribunal determinou ainda que os dois arguidos paguem, de forma solidária, uma indemnização total de 195 mil euros à viúva e aos três filhos de António, distribuída por cinco rubricas de danos resultantes do crime.
As condenações anteriores por homicídio registadas no mesmo tribunal — nos casos de Salvada e Baleizão, ambos no concelho de Beja — tinham resultado em penas de 20 anos de prisão, abaixo dos 22 anos aplicados especificamente pelo crime de homicídio neste processo.
Defesa anuncia recurso para o Tribunal da Relação de Évora
Pedro Pestana, advogado de Sanches Cardas, anunciou que vai recorrer da decisão para o Tribunal da Relação de Évora, não descartando a possibilidade de solicitar a repetição do julgamento. O defensor fundamenta a posição num pedido, recusado pelo juiz-presidente, para que o processo decorresse perante um tribunal de júri.
Os dois arguidos aguardam o trânsito em julgado do acórdão em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Beja, situação em que se encontram desde a data do crime.
Ministério Público pede certidão por violência doméstica
A procuradora do Ministério Público apresentou um requerimento a pedir a extração de certidão para eventual procedimento criminal contra Sanches Cardas por violência doméstica. O pedido tem origem numa sessão do julgamento em que o arguido insultou a nora, apelidando-a de "aldrabona" e acusando-a de querer dinheiro, sem demonstrar respeito pela perda do marido.
Source: Google News PT — Crime (pt)