Brasileiro preso nos EUA tem histórico de extorsão e tráfico, mas processos não mencionam PCC ou CV
Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla foi preso pela polícia de imigração dos EUA. Condenações no Brasil envolvem tráfico e extorsão, sem vínculos documentados com facções.

Preso nos EUA, brasileiro acumula condenações no Brasil sem ligação registrada com PCC ou CV
Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, preso pela polícia de imigração dos Estados Unidos na segunda-feira (15), acumula condenações na Justiça brasileira por tráfico de drogas, estelionato e extorsão. Conforme apurou www1.folha.uol.com.br, nenhum dos processos aos quais ele respondeu menciona as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) ou CV (Comando Vermelho).
Um promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo afirmou à reportagem que Dell Aquilla não é conhecido por qualquer ação ligada ao PCC que tenha sido investigada pelo órgão.
A vinculação dele às duas facções partiu de uma nota divulgada pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA, que o atribui como "comandante" de ambas as organizações. A Folha enviou pedido de esclarecimento ao departamento americano por e-mail na tarde de terça-feira, mas não obteve resposta até a publicação do texto.
Abordagem durante fuga em direção ao México
Segundo o ICE (sigla em inglês para a polícia de imigração americana), Dell Aquilla tentava fugir de carro em direção ao México quando foi abordado durante uma fiscalização de trânsito em Mooresville, na Carolina do Norte. Ele mantinha a própria esposa em cárcere privado dentro do veículo, também de acordo com o órgão.
Conhecido pelos apelidos Don e Felipe Boy — conforme registros judiciais —, ele era alvo de um mandado de busca e captura internacional emitido pela Interpol a pedido do Brasil.
No processo que originou a inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol, Dell Aquilla foi condenado a nove anos e sete meses de prisão por extorsão. Ao contrário do que afirma a nota do governo americano, ele foi absolvido das acusações de associação criminosa e de porte de arma de fogo.
Ameaças e extorsão em condomínio na zona leste de São Paulo
Dell Aquilla havia adquirido um imóvel em um condomínio na Vila Esperança, na zona leste de São Paulo. O proprietário desfez o negócio após o suspeito promover festas ruidosas e causar perturbações repetidas. A partir do distrato, Dell Aquilla se recusou a deixar o imóvel e passou a ameaçar de morte o proprietário, exigindo pagamentos de até R$ 50 mil para não concretizar as ameaças.
O inquérito registra ameaças com arma de fogo e vandalização do sistema de gás do condomínio em retaliação às tentativas do proprietário de retomar o imóvel. As ameaças começaram em novembro de 2018. Um mandado de prisão preventiva foi emitido no ano seguinte, mas ele não foi localizado.
A defesa de Dell Aquilla argumentou, no processo, que não houve ameaça contra o proprietário e que o caso se tratava de um desentendimento de natureza civil, sem crime envolvido. Sustentou também que não havia justificativa legal para o pedido de prisão e que ele teria o direito de se recusar a cumprir uma decisão que considerava ilegal.
A 3ª Vara Criminal autorizou em 2024 o pedido do Ministério Público estadual de inclusão de Dell Aquilla na Difusão Vermelha, após a Polícia Federal informar que ele estava na Flórida.
Trajetória criminal começa em 2006
Uma pesquisa nos sistemas de Justiça aponta que Dell Aquilla foi condenado pela primeira vez em abril de 2006, quando recebeu pena de três anos de reclusão por tráfico de drogas. Segundo o Tribunal de Justiça de Santa Catarina, ele foi flagrado com 50 comprimidos de ecstasy em janeiro daquele ano em Biguaçu, no litoral catarinense.
Cinco anos depois, em 2011, foi alvo de uma operação da Polícia Civil catarinense por suspeita de integrar uma quadrilha especializada em fraudes com cartões clonados, além de tráfico de drogas e contrabando. A investigação partiu do estilo de vida ostensivo de Dell Aquilla e de suas companhias, que frequentavam baladas, restaurantes caros e promoviam festas durante a madrugada em sua casa em Balneário Camboriú. A reportagem não encontrou informações sobre o desfecho desse caso.
Em 2014, foi preso novamente após tentar aplicar um golpe em uma loja de colchões em Itapema, também no litoral catarinense, a cerca de 70 km de Florianópolis. Ele negociou a entrega de cinco colchões no valor de R$ 17 mil sem honrar o pagamento. Quando funcionárias da loja insistiram na cobrança, Dell Aquilla as agrediu, conforme registros do jornal Diarinho anexados ao processo. A Polícia Militar foi acionada e o prendeu em flagrante.
Empresa de produção musical e ação judicial
Dell Aquilla também foi sócio de uma empresa de produção musical, a Calli Music. Uma artista o processou alegando que a empresa descumpriu contrato de assessoria artística firmado com ela. A ação foi extinta sem análise de mérito.
A reportagem não identificou quem representa atualmente o brasileiro na Justiça nos processos em andamento.
Source: Google News BR — São Paulo