Bitcoins desaparecidas da PJ: donos absolvidos exigem devolução e apontam suspeitos internos

O casal a quem foram apreendidas 9,72 bitcoins pela PJ, entretanto absolvido, acusa as autoridades de ignorar pistas internas e aguarda a devolução dos ativos.

Bitcoins desaparecidas da PJ: donos absolvidos exigem devolução e apontam suspeitos internos

Pista das bitcoins desaparecidas da PJ chega ao Canadá, mas casal aponta culpados "mais perto"

Quase oito anos depois de 9,72 bitcoins desaparecerem enquanto estavam sob custódia da Polícia Judiciária, o casal a quem pertenciam as criptomoedas — avaliadas em mais de 600 mil euros — acusa a investigação de ter desperdiçado tempo e ignorado pistas evidentes. "Não vejo coragem para levar a investigação por diante", afirmam à CNN Portugal, enquanto aguardam a devolução dos bens após terem sido absolvidos.

O rasto das moedas chegou entretanto a um cidadão canadiano, mas o casal desconfia da nova pista. "Acho que os culpados estão bem mais perto, não é preciso ir ao Canadá para encontrar culpados", declaram, sustentando que os "suspeitos óbvios" são aqueles que "tiveram contacto com a chave privada" dentro da PJ e do Ministério Público.

Apreensão em Vila Nova de Gaia e o desaparecimento

O caso remonta a outubro de 2018, quando a casa do casal em Vila Nova de Gaia foi alvo de uma megaoperação da Polícia Judiciária — na altura descrita como a maior apreensão de bitcoins da história da justiça portuguesa. "Tínhamos um espírito de colaboração com as autoridades porque não tínhamos nada a esconder", recorda o casal. "Levaram o que quiseram. Computadores, carteiras da minha mulher, televisões, tudo o que quiseram levar."

Dois especialistas da unidade de combate ao cibercrime de Lisboa foram chamados para tratar das criptomoedas. Com as credenciais fornecidas pelo casal, os inspetores transferiram as moedas para uma nova carteira criada durante a operação e colocada sob controlo da PJ. "Lembro-me de um estar a ditar o endereço para o outro, que escreveu no meu computador, e fizeram assim a transferência", recorda um dos elementos. A chave privada passou pelos sistemas da Judiciária e acabou também por ser impressa.

Quatro dias depois da busca, a carteira começou a ser esvaziada através de quatro movimentos realizados numa manhã de sábado, até o saldo desaparecer por completo. O casal só soube disso anos mais tarde, quando foi chamado à PJ e constituído arguido no próprio inquérito ao desaparecimento. "Sentimos estupefação total", recordam. "Fiquei ainda muito mais estupefacto depois ao perceber que nenhuma das outras pessoas que teve contacto com a carteira após ser apreendida era suspeita e muito menos arguida."

Investigação parada durante anos, retomada só em audiência de julgamento

O desaparecimento gerou duas frentes dentro da própria PJ: um inquérito criminal entregue à Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime, colocado em segredo de justiça, e um processo disciplinar para apurar responsabilidades internas. A investigação reconstruiu o circuito da chave privada — quem lhe tocou, por onde passou e em que condições foi guardada — e procurou perceber se o casal tinha recuperado, por alguma via, o dinheiro apreendido.

Durante anos, as autoridades souberam que as bitcoins tinham chegado a um casino online, mas não pediram à plataforma os dados que poderiam identificar o titular da conta que recebeu os fundos. "Eles não contactaram o casino", insiste o casal. A situação só mudou durante uma audiência do julgamento, meses antes da absolvição em fevereiro de 2025: a defesa voltou a levantar o desaparecimento das moedas, e nesse mesmo dia a PJ retomou o rasto, contactou a plataforma e, quatro dias depois, recebeu novos elementos para a investigação.

"Podia ter avançado em outubro de 2019, se alguém tivesse enviado um email, mas como ninguém quis enviar um email em outubro de 2019, a investigação não foi a lado nenhum", acusa o casal. "Agora, em fevereiro de 2025, já quiseram enviar um email e então já avançou." A sequência tornou-se, segundo os próprios, "difícil de ignorar".

Suspeitas recaíram sobre o casal, sem provas

As diligências investigativas concentraram-se sobretudo no casal. Os telefones foram colocados sob escuta durante cerca de dois meses e as contas bancárias escrutinadas, mas nenhuma diligência encontrou sinais de que as bitcoins lhes tivessem regressado às mãos. Em julho de 2021, foram ainda assim constituídos arguidos por suspeitas de acesso ilegítimo e descaminho. Insistiram então que "a única forma de efetuar transações de bitcoins seria utilizando a chave privada", à qual garantiam nunca ter tido acesso.

O relatório final da PJ reconheceu os limites da investigação: "Não resultou qualquer prova relativamente à movimentação da carteira de bitcoins." Quem a esvaziou, concluíram os investigadores, "sabia o que fazia" e possuía conhecimentos que "não é para qualquer leigo."

Tentativas de seguir outros caminhos no estrangeiro não permitiram identificar o autor. Em junho de 2022, o Ministério Público decidiu arquivar o processo, reconhecendo que "não foi possível concluir, com um grau de segurança objetivo" quem permitira o acesso à chave privada ou quem movimentara as moedas. Nem o casal nem qualquer elemento da PJ foram acusados pelo desaparecimento.

Absolvição e espera pela devolução

O processo que tinha levado à busca de 2018 e à apreensão das criptomoedas continuou a correr em separado. Em 2025, o casal foi absolvido dos crimes de branqueamento agravado e fraude fiscal de que estava acusado. Essa decisão tornou-se definitiva a 15 de setembro de 2025, abrindo caminho para a devolução dos ativos — que a PJ e o Ministério Público ainda não concretizaram. O casal aguarda que as autoridades cumpram a decisão judicial.

Source: CNN Portugal

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