Julgamento de Lindsay Clancy: júri decide culpa da mãe que estrangulou três filhos
O caso de Lindsay Clancy, enfermeira acusada de matar os três filhos em 2023, chegou à fase de deliberação do júri após alegações finais.

Alegações finais concluídas, júri avalia responsabilidade criminal
O júri do julgamento de Lindsay Clancy, a enfermeira obstétrica de 36 anos acusada de estrangular os três filhos até à morte em janeiro de 2023, iniciou as suas deliberações após a conclusão das alegações finais, noticia o Correio da Manhã. A questão central permanece a mesma desde o início do processo: estava a arguida em estado de psicose quando matou Cora, de 5 anos, Dawson, de 3 anos, e Callan, de 8 meses?
A defesa não contestou que foi Lindsay quem tirou a vida às três crianças na residência familiar em Duxbury, Massachusetts. Declarou-a inocente por ausência de responsabilidade criminal, invocando um episódio de psicose pós-parto. Nos meses anteriores aos homicídios, foram-lhe prescritos mais de doze medicamentos para tratar depressão pós-parto severa, ainda que não todos em simultâneo.
"Marioneta" ou "mãe funcional": dois retratos opostos
O psiquiatra forense Phillip Resnick, testemunha da defesa, descreveu Lindsay como uma "marioneta" dominada por alucinações auditivas que terão comprometido de forma profunda a sua capacidade de compreender ou controlar os próprios atos. A mãe e a irmã da arguida depuseram no mesmo sentido, descrevendo-a nos últimos meses como ansiosa, paranoica e com tendências suicidas.
A acusação apresentou um retrato diferente. A procuradora Jennifer Sprague disse ao júri que Lindsay estava "exausta e deprimida" quando matou os filhos, mas sabia que estava errada. "Foi uma escolha levá-los consigo. Uma escolha horrível. É uma escolha que preferimos não imaginar que uma mãe possa fazer, porque isso não nos faz sentir seguros ou confortáveis neste mundo. Mas foi uma escolha que ela fez", afirmou Sprague. A procuradora qualificou a arguida como uma "mãe funcional".
Gregory Saathoff, psiquiatra do FBI e última testemunha da acusação, concluiu que Lindsay conseguia distinguir o certo e o errado no dia em questão. Vários outros especialistas convocados pela acusação reconheceram a existência de problemas psiquiátricos graves, mas rejeitaram a conclusão de que a arguida estivesse psicótica a ponto de não ser criminalmente responsável.
No dia 23 de janeiro de 2023 — um dia antes dos homicídios — Lindsay teve uma consulta de psiquiatria. Os registos da consulta indicam que negou ter pensamentos suicidas ou homicidas e que não foram detetados sinais claros de psicose ou mania. A acusação serviu-se deste historial para reforçar o argumento de que a arguida compreendia os seus atos.
Advogado de defesa culpa medicação e falta de cuidados
Nas alegações finais desta quinta-feira, o advogado de defesa Kevin Reddington, de 75 anos, culpou os "malditos remédios" e o "péssimo atendimento" médico recebido por Lindsay por tudo o que aconteceu. Reddington mostrou ao júri um exemplar do livro Boas Mães Têm Pensamentos Assustadores, encontrado em casa da arguida e usado pela acusação como indício de premeditação, argumentando que se tratava apenas de uma oferta de um profissional de saúde. "Esta mulher vivia para os filhos", sublinhou.
O advogado apresentou ainda uma "caixa de desejos" que Lindsay e o então marido Patrick adquiriram na lua de mel, contendo papéis com votos de terem filhos saudáveis e bem-sucedidos. Durante a exibição desse objeto, Lindsay, que ao longo de todo o julgamento não prestou declarações, foi ouvida a soluçar.
Patrick encontrou os filhos mortos na cave
Patrick, marido de Lindsay à data dos factos e primeira testemunha do julgamento, relatou ao tribunal o que encontrou na tarde de 24 de janeiro de 2023. Regressou a casa pouco depois das 18h00, depois de ir buscar medicamentos e jantar a pedido da mulher, e deparou-se com Lindsay caída no exterior gravemente ferida. Ligou para os serviços de emergência e, durante a chamada, Lindsay disse-lhe que os filhos estavam na cave. Já com os paramédicos no local, Patrick desceu à cave e encontrou as três crianças mortas com bandas de exercício à volta do pescoço.
Após se atirar da janela do segundo andar numa tentativa de suicídio, Lindsay ficou paralisada da cintura para baixo. Nos últimos três anos esteve internada no Tewksbury Hospital, instituição gerida pelo Estado norte-americano, onde permanece sob custódia.
Cinco semanas de julgamento, mais de oitenta testemunhas
Ao longo de cinco semanas, a acusação apresentou mais de setenta testemunhas, entre as quais o pai das crianças. A defesa chamou dez testemunhas, incluindo a irmã e a mãe de Lindsay. Psicólogos e psiquiatras de ambos os lados foram interrogados sobre o estado mental da arguida no momento do crime.
Nos termos da lei do estado de Massachusetts, quando a questão da responsabilidade criminal é suscitada, recai sobre a acusação o ónus de provar que o arguido era criminalmente responsável pelos seus atos. Uma pessoa não pode ser considerada criminalmente responsável se, em virtude de doença ou perturbação mental, não tiver capacidade para compreender a natureza criminosa dos seus atos ou para controlar o seu comportamento.
A procuradora Sprague salientou ainda que, apesar de Lindsay ter procurado ajuda médica, nem sempre tomava a medicação conforme prescrito e nem sempre fornecia informações completas aos seus médicos. O júri tem agora de decidir se essa combinação de fatores — depressão, medicação, privação de sono — chegou ao ponto de eliminar a responsabilidade criminal.
Source: Correio da Manhã