Mensagens de banqueiro preso expõem relação com juiz do STF Alexandre de Moraes

Relatório da Polícia Federal revela proximidade entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, detido por fraude. Caso ameaça o judiciário e pode afetar as eleições presidenciais.

Mensagens de banqueiro preso expõem relação com juiz do STF Alexandre de Moraes

Relatório da PF abala Supremo com ligações entre Moraes e banqueiro detido por fraude

Mensagens divulgadas num relatório da Polícia Federal brasileira, e avançadas pela CNN Portugal, revelam uma proximidade acentuada entre Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, e Daniel Vorcaro, banqueiro preso por liderar um dos maiores esquemas de fraude e corrupção da história do Brasil. A relação entre os dois pode ter consequências profundas no poder judiciário e no calendário eleitoral.

Em dezembro de 2025, a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, havia já revelado que Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado, mantinha um contrato de 129 milhões de reais — mais de 21 milhões de euros — com o Banco Master. O valor foi considerado acima do padrão de mercado por advogados consultados pelos meios de comunicação brasileiros e pela CNN Portugal.

O novo relatório da Polícia Federal acrescenta detalhes sobre esse contrato. O documento foi discutido entre as partes ainda em 2024, tendo sido editado em janeiro desse ano pelo próprio Alexandre de Moraes. A 15 de março, Vorcaro enviou mensagens a uma funcionária da instituição financeira exigindo que não houvesse atrasos no pagamento mensal de três milhões de reais — cerca de 500 mil euros. "É o pagamento mais importante que temos", escreveu o banqueiro.

A outro interlocutor, Vorcaro pediu que o contrato permanecesse confidencial. Quando questionado sobre o que pretendia, respondeu: "Ninguém ter acesso. Você pega [o contrato] e não deixa ninguém ter acesso a isso."

Meses mais tarde, voltou ao assunto com o mesmo funcionário, desta vez porque os pagamentos ao escritório de advocacia estavam em atraso. "Não pagaram Barci de Moraes, não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos, te pedi para não falhar. Surreal, vamos ter problemas", escreveu.

O escritório de Barci de Moraes declarou à Folha de São Paulo que o setor de compliance, "como faz em outros casos semelhantes", consultou Alexandre de Moraes — na condição de marido da sócia diretora — sobre eventuais impedimentos legais. O escritório sublinhou que "o ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master" e que, não existindo impedimento, "o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados".

Pedidos de intervenção junto à PF e ao Ministério Público

As mensagens extraídas do telemóvel de Vorcaro mostram também que o banqueiro combinou encontros com Moraes em diversas ocasiões. Segundo a investigação, chegou ainda a solicitar ao magistrado que intercedesse em seu favor junto a Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal.

"É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo para o saco. Estou disponível para tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem", escreveu. No mesmo dia, afirmou ter conhecimento, através de membros do Banco Central, de que a Polícia Federal e o Ministério Público estavam a desenvolver investigações contra si.

A 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi detido pela Polícia Federal quando se preparava para deixar o país num voo particular. Dois dias antes, porém, já mostrava saber que poderia ser preso. "Segunda já tenho de estar fora?", perguntou a Alexandre de Moraes, segundo o relatório. No dia seguinte, questionou se o diretor da PF seria capaz de adiar as medidas cautelares. Horas antes de ser detido, voltou a contactar o juiz: "Conseguiu ter notícia ou bloquear?", interrogou.

Supremo dividido sobre investigação ao próprio membro

André Mendonça, juiz responsável por solicitar o relatório à Polícia Federal, pediu que o caso seja analisado pelo plenário do STF. Só com a autorização do tribunal será possível abrir formalmente uma investigação contra um dos seus ministros.

Segundo o Estadão, há incerteza sobre o desfecho de uma eventual votação. Luís Fux deverá votar ao lado do relator; Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin devem alinhar-se com Moraes. Cármen Lúcia, Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques são considerados incógnitas, cujo sentido de voto dependerá de conversas internas.

Existe ainda o receio de que o escândalo ponha em causa os processos que julgaram os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado. Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos — todos candidatos à presidência — já exigiram publicamente a demissão do ministro.

Paulo Gonet, por sua vez, pediu a anulação das informações do relatório, argumentando tratar-se de uma investigação a um membro do STF sem autorização do tribunal. O próprio procurador-geral da República mantinha relações com Vorcaro, de acordo com as investigações: terá recebido uma viagem a Londres para uma prova de uísque — na qual o diretor da PF também participou — e chegou a dizer que estava com "saudade" do banqueiro.

Source: CNN Portugal

Read this article in English