Júri dividido anula julgamento de Lindsay Clancy por morte dos três filhos em Massachusetts
O juiz William Sullivan declarou nulo o processo após o júri não atingir unanimidade. Onze jurados inclinavam-se para a absolvição; um mantinha posição contrária.
Impasse no júri força anulação do processo contra mãe acusada de triplo infanticídio
O juiz William Sullivan, do tribunal de Plymouth, em Massachusetts, declarou esta sexta-feira a nulidade do julgamento de Lindsay Clancy, de 36 anos, acusada do homicídio dos seus três filhos — uma menina de cinco anos, um rapaz de três e um bebé de oito meses. Segundo healthnews.pt, a decisão surgiu após vários dias de deliberações em que os doze jurados não conseguiram alcançar o consenso exigido pela lei norte-americana para qualquer veredito criminal.
O impasse foi gritante: onze jurados inclinavam-se para a absolvição, com base na tese de irresponsabilidade penal por perturbação mental grave, enquanto um único elemento mantinha posição contrária. Sullivan chegou a suspender a sessão por cerca de uma hora, a pedido dos advogados de Clancy, para permitir a apresentação de recursos de última hora, mas concluiu não ter alternativa senão dissolver o júri.
"Perante a evidência de um júri bloqueado, não tenho outra escolha senão declarar o julgamento nulo", afirmou Sullivan, perante uma sala repleta de jornalistas e ativistas. O caso poderá ser novamente levado a julgamento com um novo painel de jurados, embora ainda não haja data marcada para essa eventual repetição.
Defesa invocou psicose pós-parto severa
Clancy compareceu em cadeira de rodas — consequência de uma tentativa de suicídio na sequência do triplo infanticídio, ocorrido em 2023 — e nunca negou a autoria dos factos. A defesa sustentou que ela agiu sob o efeito de uma psicose pós-parto severa e que ouvia vozes a ordenar-lhe que matasse as crianças. "Uma voz disse-me que era a única forma de as salvar", terá relatado a arguida em depoimentos anteriores, ainda que este excerto não constasse diretamente das alegações finais.
A acusação rejeitou liminarmente esse argumento e procurou demonstrar que os homicídios foram planeados com frieza e que, no momento dos atos, Clancy tinha plena consciência da natureza e da gravidade do que fazia. Para os promotores, a tentativa de suicídio subsequente não configurava prova de insanidade, mas antes um gesto de desespero de quem sabia ter cometido um crime irreparável.
Caso gerou debate nacional sobre saúde mental no pós-parto
O processo transcendeu largamente as fronteiras de Plymouth e tornou-se um dos mais mediáticos dos últimos anos nos Estados Unidos, alimentando um aceso debate público sobre a fragilidade da saúde mental no período pós-parto. No banco das testemunhas, psiquiatras forenses, familiares e o ex-marido da acusada — e pai das vítimas — descreveram o estado de angústia profunda em que Clancy vivia, com episódios de alucinações e insónias que, segundo os peritos, são compatíveis com o quadro de psicose.
Do lado de fora do tribunal, dezenas de mulheres concentraram-se durante semanas, em silêncio ou com cartazes, para manifestar apoio a Clancy. Muitas pertencem a associações de defesa dos direitos das mães e esperam que o caso contribua para aumentar a consciencialização para uma perturbação que, segundo estatísticas citadas por esses grupos, afeta entre uma a duas mulheres em cada mil partos. Em sentido contrário, uma faixa considerável da opinião pública mostrou-se indignada com a brutalidade dos crimes e com o que considera ser uma excessiva complacência perante uma mãe que tirou a vida aos próprios filhos.
Destino judicial permanece em aberto
A anulação do julgamento deixa em aberto o destino judicial de Clancy, que continua a aguardar em instalações hospitalares sob custódia enquanto a defesa estuda os próximos passos. O Ministério Público ainda não confirmou se irá avançar com uma nova acusação formal ou se tentará um acordo que evite um segundo julgamento.
Source: Google News PT