Fraude bilionária no lixo de Bauru: Gaeco prende sete, incluindo ex-secretários

O Gaeco prendeu sete pessoas em Bauru (SP) por suspeita de fraude em licitação de R$ 5,2 bilhões para gestão do lixo. As investigações começaram com denúncias de ameaças a catadores de recicláveis.

Fraude bilionária no lixo de Bauru: Gaeco prende sete, incluindo ex-secretários

Ameaças a catadores abrem investigação sobre licitação bilionária do lixo em Bauru

Conforme g1.globo.com, as investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sobre suspeitas de fraude na maior contratação pública da história de Bauru (SP) tiveram origem em denúncias de ameaças contra catadores de recicláveis. A partir de relatos comunicados pela Polícia Militar em março deste ano, o Ministério Público chegou a um esquema que envolve ex-secretários municipais, um executivo do setor de resíduos e a ex-presidente de uma associação de catadores.

Na última quarta-feira (9), o Gaeco deflagrou a Operação Cavalo de Troia em conjunto com a Polícia Militar. Sete pessoas foram presas. Na quinta-feira (10), após audiência de custódia, a Justiça manteve as prisões temporárias de todos os detidos.

Os presos e os crimes investigados

Entre os detidos estão Cilene Chabuh Bordezan, ex-secretária de Meio Ambiente; Vitor João de Freitas Costa, ex-secretário de Negócios Jurídicos — em cuja residência foram apreendidos R$ 240 mil em dinheiro vivo —; Sara Moura de Jesus, ex-secretária-adjunta de Meio Ambiente; Hamilton Libório Agle, proprietário e ex-CEO da empresa Estre Ambiental, preso em São Paulo; e Talita de Andrade Soares Chieregatti, funcionária da mesma empresa, também presa na capital paulista.

Paralelamente, numa operação denominada Mobius conduzida de forma simultânea, foram presos Gisele Moretti, ex-presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Ascam), e seu marido, Valdomiro Pereira da Silva Filho.

As investigações apontam os crimes de fraude licitatória, corrupção ativa e passiva, advocacia administrativa, falsidade ideológica e associação criminosa no processo de concessão da gestão integrada de resíduos sólidos da cidade.

De ameaças a catadores ao esquema de propina

As apurações iniciais indicaram que Valdomiro tinha ligações com uma facção criminosa e antecedentes de tráfico de drogas, e utilizava essa vinculação para intimidar catadores de recicláveis. A partir dessas investigações, o Gaeco chegou a Gisele Moretti, apontada como articuladora de um esquema de desvio à frente da Ascam — entidade que tem contrato com a prefeitura para coleta de material reciclável e gestão dos ecopontos da cidade. Esses contratos, no valor de mais de R$ 5 milhões, foram firmados com dispensa de licitação.

Documentos do Ministério Público destacam trechos de conversas entre Gisele e Valdomiro que indicam envolvimento no esquema para fraudar a licitação da gestão do lixo e da limpeza pública. Em mensagens de áudio, o casal discute a possibilidade de Gisele cobrar propina de uma pessoa chamada por eles de "Mitsunaga" — posteriormente identificado como Luiz Henrique Mitsunaga, advogado de Gisele Moretti. Nos diálogos, são mencionados o recebimento de "uma pensão" de R$ 80 mil mensais sem contrapartida e até pagamentos da ordem de R$ 100 milhões.

O MP ressalta que, durante o período de monitoramento das conversas, o edital da licitação do lixo ainda não havia sido publicado pela prefeitura, mas os diálogos já demonstravam que Gisele buscava formas de proteger seus interesses diante da concessão, que afetaria também a coleta seletiva da cidade.

O "Cavalo de Troia" dentro da secretaria

O nome da operação faz referência à estratégia central identificada pelos promotores: a presença, na cúpula da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, de agentes com vínculos econômicos e profissionais com a empresa beneficiada. Essa infiltração teria permitido direcionar as regras do processo licitatório "por dentro" do governo municipal.

A partir de um diálogo entre o casal registrado em 11 de maio, o Gaeco ampliou o monitoramento para incluir os demais investigados. Os nomes de Cilene Bordezan e de Hamilton Libório Agle aparecem nas escutas de conversas do casal.

A licitação suspensa e o impacto municipal

A licitação investigada previa um contrato de 30 anos, com valor global estimado em R$ 5.259.651.116,06 — a maior contratação pública da história de Bauru. O certame, contudo, foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) após denúncias de irregularidades.

A Prefeitura de Bauru exonerou os três secretários presos e também o coordenador de Políticas Públicas para o Meio Ambiente, Roldão Neto, nomeando novos titulares interinos para o comando das respectivas pastas. Em paralelo às investigações do Ministério Público, a Câmara Municipal de Bauru instaurou um pedido de Comissão Especial para apurar os fatos.

Source: Google News BR — São Paulo

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