Gaeco revela esquema de fraude em licitação do lixo em Bauru com propina a vereador
Documentos do Gaeco apontam relacionamento entre ex-secretária e CEO preso, que teriam atuado para fraudar licitação de resíduos sólidos em Bauru (SP).

Ex-secretária e CEO da Estre Ambiental articulavam fraude na licitação do lixo em Bauru, aponta Gaeco
O Procedimento Investigatório Criminal do Gaeco, obtido pela TV TEM nesta sexta-feira (11) e divulgado por g1.globo.com, detalha que a ex-secretária de Meio Ambiente de Bauru, Cilene Bordezan, e o executivo Hamilton Libório Agle, CEO da Estre Ambiental, mantinham um relacionamento amoroso enquanto, segundo a investigação, articulavam um esquema para fraudar a licitação de coleta de resíduos sólidos na cidade.
O documento, cujo sigilo foi levantado pela Justiça, descreve também a divisão de tarefas entre os suspeitos presos e revela que o grupo planejava cooptar vereadores para defender os interesses da empresa no Poder Legislativo.
Empresa atuava "por dentro" da Prefeitura
Segundo os promotores do Gaeco, o vínculo afetivo entre Cilene e Hamilton teria permitido que a Estre Ambiental não concorresse à licitação como empresa comum, mas operasse diretamente no interior da Prefeitura de Bauru. De acordo com o Ministério Público, a companhia participava da elaboração de pareceres e documentos oficiais do município, como se fossem decisões públicas isentas.
O relacionamento foi confirmado, segundo a investigação, por meio de mensagens e de vigilância presencial realizada pelos investigadores. No dia 5 de agosto, agentes do Ministério Público fotografaram o carro de Hamilton estacionado em frente ao prédio onde Cilene residia. O veículo permaneceu no local durante toda a noite — registro que o MP interpreta como indicativo de que os dois passaram a noite juntos.
Plano para infiltrar aliados na Câmara Municipal
O relatório aponta que o grupo buscava apoio político na Câmara Municipal de Bauru para defender o projeto da concessão e atacar parlamentares de oposição. Em conversas registradas no dia 3 de setembro de 2026, Hamilton reclamou à ex-secretária sobre os ataques constantes que o edital vinha sofrendo no Legislativo.
"Uma das coisas que eu acho que a gente pode avaliar para as próximas. A gente precisa ter um ou dois infiltrados nossos na Câmara. Alguém que pegue a bandeira e defenda o projeto", disse o executivo, segundo a gravação reproduzida no documento.
Em resposta, Cilene relatou que já vinha conversando com o vereador Sandro Bussola (MDB), líder do governo na Câmara, e descreveu uma estratégia de pautas semanais para municiá-lo. "A gente fez a pauta, vamos fazer uma pauta toda sexta-feira para ele e ele vai fazer essa defesa todas as segundas-feiras na sessão. Ele falou: 'quero moer o Márcio' [referindo-se ao vereador de oposição Márcio Teixeira]", disse Cilene na gravação.
Ao encerrar o alinhamento político, a ex-secretária sugeriu a Hamilton que recompensasse o parlamentar: "Então, Morzinho, já vamos dar um querequezinho para esse cara." O Ministério Público interpreta o termo "querequezinho" como referência ao pagamento de propina em dinheiro para garantir o apoio do vereador.
Divisão de papéis entre os investigados
O Gaeco detalha a função atribuída a cada investigado no suposto esquema:
- Cilene Bordezan (ex-secretária de Meio Ambiente): principal ponte entre a prefeitura e os interesses da Estre Ambiental.
- Hamilton Libório Agle (CEO da Estre): coordenava as ações do grupo empresarial mobilizado para assumir a concessão.
- Sara Moura de Jesus (ex-secretária-adjunta): responsável pela parte operacional da secretaria, preparando documentos e minutas de interesse da empresa.
- Vitor João de Freitas Costa (ex-secretário de Negócios Jurídicos): preso durante a operação com R$ 240 mil em espécie na própria residência; citado em áudios buscando informações sigilosas e trabalhando para destravar o edital junto ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), que havia suspendido a licitação por suspeita de irregularidades.
O relatório indica ainda que os investigados chegaram a levantar dados pessoais de um conselheiro do TCE-SP para tentar realizar aproximações indevidas e que pretendiam replicar o mesmo modelo de fraude em licitações de outras cidades, entre elas Curitiba (PR).
Reações dos envolvidos
O vereador Sandro Bussola (MDB) afirmou, em nota, desconhecer qualquer envolvimento com Hamilton Libório Agle no processo de concessão dos resíduos sólidos. O parlamentar disse que não foi alvo de buscas durante a investigação do Gaeco e que os encontros com ex-secretários ocorreram estritamente no âmbito político e institucional. Bussola afirmou repudiar qualquer tentativa de associar sua atividade parlamentar a atos ilícitos e disse colocar-se à disposição das autoridades.
A Estre Ambiental informou que colabora integralmente com as investigações, prestando todos os esclarecimentos necessários, e confirmou que não participará da licitação do lixo em Bauru. A empresa afirmou ainda estar adotando as providências necessárias para se desvincular do processo.
A Prefeitura de Bauru reiterou que coopera com o Ministério Público, ressaltou que não há apontamentos contra a prefeita e informou ter exonerado os secretários municipais citados — Cilene Bordezan, Vitor Costa e Sara Moura —, além do coordenador Roldão Neto. A administração municipal também abriu apurações administrativas internas.
A TV TEM tentou contato com as defesas dos investigados presos — Cilene Bordezan, Hamilton Agle, Vitor Costa, Sara Moura, Gisele Moretti e Valdomiro Pereira da Silva Filho —, sem obter retorno até o fechamento da reportagem.
Source: Google News BR — São Paulo