MP de SP denuncia 19 por 'banco do crime' do PCC ligado a operadores da Lava Jato
O MPSP acusou 19 pessoas de montar estrutura financeira clandestina para lavar dinheiro do PCC, com operadores já condenados pela Lava Jato.

Operadores da Lava Jato são denunciados por esquema bilionário de lavagem para o PCC em SP
O Ministério Público de São Paulo denunciou 19 pessoas por montar uma estrutura financeira clandestina que funcionava como um "banco do crime" a serviço do Primeiro Comando da Capital (PCC), conforme relata g1.globo.com. Entre os acusados estão operadores financeiros com passagem pela Operação Lava Jato, incluindo Leonardo Meirelles, Raphael Flores Rodriguez — conhecido como "Batata" — e a contadora Meire Bonfim da Silva Poza.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que Cléber Azevedo dos Santos, Leonardo Meirelles e Paulo Rogério Silva, o "Paulo Barão", ocupavam o centro da estrutura. Os três são investigados em diferentes ações penais e teriam movimentado "quantias bilionárias" ao longo de suas atividades, segundo a denúncia.
Para o Ministério Público, a organização funcionava como uma central de serviços financeiros ilícitos — um "verdadeiro Banco do Crime" — colocada à disposição de integrantes do PCC para ocultar a origem de recursos provenientes do tráfico de drogas e de outros crimes. Os acusados respondem por organização criminosa e lavagem de dinheiro, entre outros delitos, conforme a participação individual de cada um. O MP também pede indenização mínima de R$ 10 milhões por danos morais coletivos e sociais, a ser paga solidariamente pelos réus.
Dinheiro vivo virava transferência bancária
A estrutura teria operado entre 2019 e 2025, segundo a denúncia, utilizando empresas de fachada, contas de terceiros e "laranjas" para dificultar o rastreamento dos valores.
Um dos principais serviços oferecidos era a chamada "troca de TED por vivo": o grupo recebia dinheiro em espécie de origem ilícita e, mediante comissão, realizava transferências bancárias de valor equivalente por meio de contas próprias, de laranjas ou de empresas de fachada. O caminho também funcionava no sentido contrário — recursos recebidos pelo sistema bancário podiam ser convertidos em espécie.
Mensagens obtidas em celulares apreendidos nas operações Recidere e Bazaar indicam, segundo o Gaeco, que os envolvidos tinham ciência da procedência ilícita dos valores. O conhecimento sobre a origem do dinheiro era levado em conta inclusive para determinar o "deságio" cobrado pela operação.
Para o MP, o caso representa uma "convergência criminal": operadores especializados em ocultar patrimônio ilícito passaram a prestar a mesma estrutura financeira a integrantes do PCC.
Papel da contadora e do "Batata"
A denúncia descreve Meire Bonfim da Silva Poza como peça essencial no esquema. Com atuação já revelada na Lava Jato, ela teria elaborado declarações fiscais, analisado documentos tributários e prestado assessoria contábil para conferir aparência de legalidade às operações. Segundo o MP, ela também participou diretamente das trocas de transferências por dinheiro vivo. Uma mensagem de fevereiro de 2023, reconhecida pela própria contadora, indicaria que ela recebia de Cléber Azevedo remuneração mensal de R$ 70 mil pela exclusividade de seus serviços.
Raphael Flores Rodriguez, o "Batata", já condenado no âmbito da Lava Jato, teria ido além do papel de cliente no novo esquema. O Gaeco afirma que ele comprou imóveis em sociedade com outros operadores, negociou veículos, compartilhou caixas com recursos de atividades criminosas e participou de situações envolvendo corrupção policial.
Estrutura a serviço direto do PCC
Entre os apontados como usuários da estrutura está Leonardo Monteiro Moja, o "Léo do Moinho", e Alexandre Salles Brito, o "Buiú" — já denunciado anteriormente na Operação Fim da Linha por suspeitas de organização criminosa e lavagem de dinheiro ligadas ao PCC e à empresa de ônibus UpBus. O MP afirma que ao menos dez operações, somando R$ 232 mil, foram realizadas em benefício de Buiú por meio dessa estrutura.
Para os promotores, a relação entre os operadores financeiros e o PCC não se limitava à prestação eventual de serviços. A denúncia sustenta que os acusados conheciam termos internos da facção, participavam de sessões do chamado "tribunal do crime" e chegavam a recorrer ao poder coercitivo da organização para resolver disputas patrimoniais próprias.
Corrupção policial como suporte ao esquema
A denúncia afirma ainda que a estrutura recorria à corrupção de agentes públicos para garantir a continuidade das atividades. Segundo o Gaeco, Marlon Antonio Fontana intermediava e operacionalizava pagamentos de vantagens indevidas a policiais civis. Esses episódios são objeto da Operação Bazaar, que identificou, segundo o MP, uma prática de "corrupção sistêmica" por parte dos operadores financeiros.
Os 19 denunciados são: Cléber Azevedo dos Santos, Paulo Rogério Silva ("Paulo Barão"), Leonardo Meirelles (foragido), Meire Bomfim da Silva Poza, Robson Martins de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Júnior, Bruno Ramos Fernandes, Odair Alves da Silveira Filho, Alexandre Viriato da Silva ("Gordão"), André de Souza Haddad ("Minhoca"), Antônio Carlos Sampaio ("Kaká" ou "Compadre", foragido), Danillo Vinícius da Silva Rosário ("Brigadeiro"), Leonardo Monteiro Moja ("Léo do Moinho"), Alexandre Salles Brito ("Buiú"), Raphael Flores Rodriguez ("Batata", foragido), Amjad Ahmad ("Amin", foragido), Jacqueline Cavalcante Brito, Marcelo de Morais Oliveira e Marlon Antonio Fontana.
Source: Google News BR — São Paulo