Sócrates acusa MP de mentir e manipular escutas em novo dia de julgamento
O ex-primeiro-ministro José Sócrates contestou a forma como conversas telefónicas foram reproduzidas na acusação, classificando-as de falsas. A próxima audição está marcada para terça-feira.

"Isto é tudo uma mentira", grita Sócrates ao contestar escutas no tribunal
Segundo a RTP, José Sócrates voltou a elevar o tom esta quinta-feira durante a audiência do seu julgamento, acusando o Ministério Público de "manipular conversas" e de mentir na forma como reproduziu um telefonema na acusação.
Em causa está uma chamada entre Sócrates e Carlos Santos Silva, em que o MP sustenta ter sido o antigo primeiro-ministro a dizer ao interlocutor para não voltarem a falar sobre o assunto ao telefone. Sócrates rejeitou essa versão de forma veemente: "A acusação diz que fui eu que disse 'não fales mais pelo telefone'! É difícil de acreditar!" Segundo o ex-chefe do governo, foi Santos Silva quem proferiu essa frase.
Quando a juíza confirmou que era essa a interpretação constante da acusação, Sócrates reagiu: "Não reproduzam. Isso é uma violência." Perante a insistência da magistrada, acrescentou apenas: "Isto é pior!"
O antigo primeiro-ministro reiterou ainda a tese de perseguição política: "Tudo o que a direita odiava, o MP perseguiu."
Apartamento em Paris: "Eu não sou proprietário de nenhum apartamento"
A sessão incluiu também perguntas sobre a aquisição de um apartamento em Paris, um dos eixos centrais da acusação. Sócrates garantiu não ter tido qualquer palavra na decisão de compra. "Não sabia da intenção de Carlos Santos Silva em comprar o apartamento. Eu não disse nada sobre a compra", afirmou.
O ex-primeiro-ministro descreveu que foi Santos Silva quem, em 2012, negociou e fechou o preço do imóvel junto da agência imobiliária, sem o seu conhecimento prévio. "Não conheço o notário, a imobiliária. Não conheço. Só há uma explicação: eu não conhecia estas pessoas", disse.
Sócrates questionou ainda a lógica da acusação: "Como é que sou proprietário oculto se não escolhi o apartamento? Eu não estive presente. Podem perguntar ao Santos Silva." E concluiu: "Eu não sou proprietário de nenhum apartamento em Paris. Sou culpado por associação."
Sobre móveis adquiridos numa loja em Paris — mencionados na acusação —, Sócrates esclareceu que a compra se destinava à sua própria casa e não à de Santos Silva. "Compramos dois candeeiros e um sofá. Se bem me recordo. Com isto gastei 7 mil euros", indicou, acrescentando que o MP não incluiu na investigação uma conta de Paris que considerou relevante.
TGV: Sócrates insiste que não houve pressão política
Após a pausa para almoço, o antigo primeiro-ministro quis retomar o raciocínio sobre o concurso do TGV, classificando a acusação relacionada com esse tema de "maliciosa". "Eu não tinha imposição nem pretensão em antecipar o concurso relativo ao TGV", afirmou.
Sócrates sustentou que a ideia de antecipar o concurso partiu do ministro das obras públicas, e não de si. Referiu ainda que todos os membros do júri do concurso alegaram, por escrito, ter aceite determinada cláusula por existir aprovação do Tribunal de Contas, descartando qualquer pressão da esfera política. "Não é responsabilidade da política, é uma responsabilidade assumida por todos eles", clarificou.
A juíza interrompeu várias vezes o discurso, pedindo ao arguido que se concentrasse em dados novos e não repetisse argumentos já apresentados. "Mas vai dizer alguma coisa de novo?", questionou a magistrada. Sócrates respondeu que ia, mas que acabaria por se repetir.
O ex-primeiro-ministro acusou ainda o Ministério Público de ter feito "uma autêntica auditoria" ao seu governo ao longo do processo.
Tensão com a juíza e novo confronto sobre linguagem
A sessão ficou também marcada por momentos de tensão entre Sócrates e a presidência do tribunal. O ex-primeiro-ministro utilizou o termo "porcarias" ao referir-se a conteúdo da acusação — "Eu leio porcarias na acusação" —, tendo sido advertido pela juíza para moderar a linguagem. "Vá, eu peço desculpa. Pronto, eu disse porcaria. Mas o que eu quero dizer é: dizem que há duas contas. Mas como assim?", continuou.
Houve ainda uma discussão sobre a forma como Sócrates se dirigia ao procurador: a juíza pediu que lhe chamasse pelo nome completo ou apenas pelo título. O ex-primeiro-ministro respondeu não se recordar do apelido do magistrado, invocando que ele próprio já tinha sido tratado de forma depreciativa no passado: "Chamavam-me José Pinto de Sousa."
Próximas sessões marcadas para terça e quarta-feira
A audiência desta quinta-feira chegou ao fim sem que os temas em análise fossem esgotados. José Sócrates volta a ser ouvido na próxima terça-feira, às 10h30, depois da audição de uma testemunha prevista para as 9h30. Está igualmente agendada uma nova sessão para quarta-feira, às 14h00.
Nas próximas sessões, o ex-primeiro-ministro deverá abordar os temas relacionados com Paris, nomeadamente os acontecimentos ocorridos entre 2013 e 2014.
À saída do tribunal, Sócrates lembrou ter apresentado três advogados e acusou a juíza de não ter concedido tempo suficiente de preparação para o julgamento.
Source: RTP