Chefes da 'Ndrangheta comandavam tráfico de cocaína de dentro de presídio federal no Brasil

Pai e filho italianos, presos desde 2019 em Brasília, teriam continuado a dirigir rota de cocaína entre América do Sul e Europa. Operação Eredità apreendeu mais de 4,6 toneladas.

Chefes da 'Ndrangheta comandavam tráfico de cocaína de dentro de presídio federal no Brasil

Operação Eredità expõe como 'Ndrangheta manteve tráfico internacional mesmo com líderes atrás das grades

Nicola Assisi e seu filho Patrick, presos pela Polícia Federal em julho de 2019 em Praia Grande, no litoral de São Paulo, teriam continuado a transmitir ordens para uma estrutura ligada à 'Ndrangheta de dentro de um presídio federal em Brasília. A revelação consta da Operação Eredità, conforme relata comunitaitaliana.com, e expõe a capacidade da organização criminosa calabresa de manter seus negócios mesmo após a captura de seus principais operadores.

Os dois italianos estavam sendo processados para extradição à Itália, onde eram acusados de integrar uma estrutura da 'Ndrangheta dedicada ao tráfico internacional de cocaína entre a América do Sul e a Europa. Segundo os investigadores, Nicola e Patrick sabiam que eram monitorados, mas encontraram formas de manter a comunicação com a organização. Com base nesses elementos, uma nova medida cautelar foi determinada contra ambos.

Brasil como plataforma logística

A investigação aponta que o Brasil era utilizado como plataforma logística para a cocaína produzida na América do Sul com destino à Europa. O Porto de Paranaguá, no Paraná, aparece como um dos principais pontos de saída das cargas, ao lado de portos paulistas.

A apuração relaciona a estrutura a pelo menos 11 apreensões de cocaína realizadas entre 2019 e 2020, que somaram mais de 4,6 toneladas destinadas ao continente europeu. Havia ainda cerca de 2,2 toneladas armazenadas no Brasil quando Nicola e Patrick foram detidos. Mesmo com a captura dos dois, segundo os investigadores, a rede conseguiu se reorganizar.

"Herança" familiar manteve a engrenagem

É daí que vem o nome Eredità — "herança", em italiano. Familiares e pessoas de confiança dos Assisi teriam assumido funções na estrutura, mantendo contatos com fornecedores, logística e movimentação financeira. Entre os presos na operação está Paula Simões, mulher de Patrick, apontada pela investigação como uma das responsáveis por administrar os negócios após a prisão do marido e do sogro.

Os investigadores identificaram também uma estrutura voltada a movimentar, ocultar e dissimular dinheiro proveniente do tráfico. Os investigados podem responder, conforme a participação de cada um, por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Cooperação Brasil-Itália

Deflagrada em 17 de setembro, a Operação Eredità foi resultado de uma investigação conjunta entre os dois países. No Brasil, atuaram a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Do lado italiano, participaram a Procuradoria de Turim e o Departamento Anticrime de Turim do ROS, a unidade especial dos Carabinieri especializada no combate ao crime organizado. A operação cumpriu mandados de prisão e de busca no território brasileiro e determinou o bloqueio de bens e valores.

A ação dá continuidade a investigações anteriores, entre elas Retis, Spiderweb, Samba e Mafiusi, e é fruto de anos de cooperação entre as autoridades brasileiras e italianas.

'Ndrangheta e sua expansão internacional

Originária da Calábria, no sul da Itália, a 'Ndrangheta se tornou uma das principais forças do crime organizado internacional e um dos maiores atores do tráfico de cocaína para a Europa. Segundo a Europol, sua expansão se apoia no poder financeiro, na capacidade de corrupção e na infiltração em atividades econômicas legais. A organização reproduziu sua rede criminosa em diversos países, criando estruturas permanentes fora da Itália.

O resultado da Operação Eredità revela uma engrenagem que não dependia da liberdade de seus chefes: mesmo atrás das grades, segundo os investigadores, pai e filho teriam tentado manter o controle de uma rota de cocaína que ligava a América do Sul à Europa.

Source: Google News BR — Crime

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