Comando Vermelho quer controlar rotas marítimas do Rio para exportar droga para Europa e África

O CV expande territórios no Rio visando portos e corredores para tráfico internacional. Prisões enchem-se de criminosos poderosos, alerta delegado.

Comando Vermelho quer controlar rotas marítimas do Rio para exportar droga para Europa e África

Comando Vermelho avança sobre portos do Rio para ampliar tráfico internacional de droga

A maior facção criminosa do Brasil, o Comando Vermelho (CV), trava pelo menos quatro confrontos simultâneos no Rio de Janeiro enquanto traça um plano que vai além do controlo de bairros e favelas: o grupo quer dominar corredores de passagem até aos Portos do Rio, de Itaguaí e à Baía de Guanabara, para escoar droga com destino à Europa e a África. É o que revela o mapeamento das tentativas de expansão da facção, relatado por cnnportugal.iol.pt com base em investigações policiais.

Segundo o delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), o objetivo estratégico do CV é claro: criar rotas marítimas paralelas que aumentem o tráfico internacional. "Se eles avançarem nessas áreas, vão ter mais rentabilidade. A partir do momento que ocuparem esse território, ele se tornaria uma passagem para armamento e droga", explicou Saback. "O projeto de expansão do CV é muito maior do que o simples domínio do território. É também controle e hegemonia das rotas — incluindo expansão marítima."

O delegado acrescentou que, a partir do Porto de Itaguaí e da Baía de Guanabara, a facção poderia ainda aceder ao Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, onde o CV já está presente, e de lá atingir Niterói, a Região Serrana e o norte do estado. "O objetivo deles também é o controle de rotas. Até para proporcionar um aumento do tráfico internacional, mandando droga para Europa, África, onde a monetização é muito maior", disse Saback.

Quatro frentes de combate ativas na cidade

Os confrontos decorrem em simultâneo em zonas distintas da cidade. Na Zona Sudoeste, o CV disputa áreas em Rio das Pedras e nas favelas das Vargens e do Recreio. Na Zona Norte, o conflito centra-se em Cordovil. Na Zona Oeste, o embate estende-se entre Campo Grande e Guaratiba.

Em 27 de julho, 11 criminosos armados com fuzis e vestidos com roupas camufladas invadiram uma área de mata entre Campo Grande e Guaratiba para tentar alcançar uma comunidade controlada pela milícia. A incursão foi registada por câmeras de segurança. Em Santa Cruz, o CV ainda não conseguiu penetrar em qualquer comunidade controlada por milicianos.

Na região do Itanhangá, o CV domina todas as favelas à exceção de Rio das Pedras. Em Cordovil, as favelas Tintas e Dourados têm sido alvo de ataques comandados por Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP), que controla o chamado Complexo de Israel — agrupamento de favelas que inclui Parada de Lucas, Vigário Geral, Pica-Pau, Cidade Alta e Cinco Bocas.

"Doca", o chefe com 45 mandados de prisão

Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, é apontado pela polícia como o principal responsável por ordenar as invasões que visam a expansão do CV. Integrante da cúpula da facção, Doca acumula 45 mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça.

A hegemonia territorial do CV já abrange cerca de 60% das comunidades do Rio, segundo as autoridades. Para a polícia, se o domínio for alargado, a facção poderá aumentar significativamente a sua capacidade económica — através da cobrança de taxas e da exploração de serviços — e reforçar as operações de envio de droga para o estrangeiro.

Arsenal e financiamento da facção

O armamento chega ao Rio por três rotas. A principal, conhecida como Rota do Norte ou Transamazônica, parte de zonas próximas da Venezuela, atravessa a Amazônia pelos rios Negro e Solimões e pelo Pará, até atingir o Centro-Oeste e, depois, o Sudeste do país.

A dimensão do arsenal em uso nos confrontos não tem estimativa oficial, mas os números parciais são expressivos. Só na Rocinha, durante uma operação realizada em junho de 2025 pelo Ministério Público do Ceará em conjunto com a polícia fluminense, 400 homens armados com fuzis foram filmados por um drone ao fugir de um cerco por área de mata. Ainda em 2025, mais de 90 fuzis foram apreendidos nos Complexos da Penha e do Alemão após uma operação que resultou em 122 mortos — 117 suspeitos e cinco polícias.

Para financiar a compra de armamento e munições, a facção recorre a roubos, extorsões e à venda clandestina de sinais de televisão por cabo e de internet. Em março deste ano, uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) desmantelou um esquema de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro com ligações suspeitas ao CV, que movimentou 136 milhões de reais num único ano.

Criptomoedas ao serviço do crime organizado

As autoridades confirmam que o CV lavava dinheiro de origem criminosa através de criptoativos. Em resposta, a polícia anunciou em junho a criação do Núcleo de Apoio às Investigações com Ativos Virtuais (NuCripto), destinado a apoiar as delegacias que investigam movimentações financeiras ilícitas por parte de organizações criminosas. A criação da unidade surgiu na sequência da identificação de fazendas clandestinas de mineração de criptomoedas. Uma dessas instalações foi descoberta pela polícia em 22 de maio, no Complexo do Lins.

O quadro traçado pelas investigações revela uma organização que combina violência territorial com sofisticação financeira — e que olha cada vez mais para além das fronteiras do Brasil.

Source: Google News PT — Crime (pt)