Comando Vermelho expande rotas para portos do Rio e tráfico internacional de drogas
O Comando Vermelho quer controlar corredores até os Portos do Rio e de Itaguaí para enviar droga à Europa e África. Facção já domina cerca de 60% das comunidades do Rio.

CV mira portos e rotas marítimas para ampliar tráfico internacional
O Comando Vermelho (CV), maior facção criminosa do Rio de Janeiro, trava pelo menos quatro confrontos simultâneos em diferentes zonas da cidade, segundo informações publicadas por oglobo.globo.com. O objetivo vai além da conquista territorial: a facção quer criar corredores de passagem por comunidades da Região Metropolitana para aceder aos Portos do Rio, de Itaguaí e à Baía de Guanabara.
Os conflitos decorrem simultaneamente em Rio das Pedras e em favelas das Vargens e do Recreio, na Zona Sudoeste, em Cordovil, na Zona Norte, e entre Campo Grande e Guaratiba, na Zona Oeste.
Expansão na Zona Oeste: fusils e roupas camufladas
Na Zona Oeste, região com ligação direta ao município de Itaguaí, o CV controla parte de Bangu e disputa áreas como a Favela do Barbante, em Campo Grande. A 27 de julho, onze criminosos armados com fuzis e vestidos com roupas camufladas invadiram uma área de mata entre o bairro e Guaratiba, numa tentativa de alcançar uma comunidade controlada pela milícia. A ação foi registada por câmeras de segurança. Em Santa Cruz, a facção ainda não conseguiu penetrar em nenhuma comunidade sob domínio miliciano.
Na região do Itanhangá, na Zona Sudoeste, o CV controla todas as favelas, com exceção de Rio das Pedras. Há confrontos com quadrilhas rivais nas Vargens, no Terreirão e nas favelas Tintas e Dourados, em Cordovil. Estas duas últimas vêm sendo atacadas por homens liderados por Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP) que controla o chamado Complexo de Israel, que inclui as favelas de Parada de Lucas, Vigário Geral, Pica-Pau, Cidade Alta e Cinco Bocas.
Doca: 45 mandados de prisão e papel central na expansão
O delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), aponta Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, como o principal responsável por ordenar as invasões que alimentam a expansão do CV. Membro da cúpula da facção, Doca é alvo de 45 mandados de prisão emitidos pelo Tribunal de Justiça, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça.
"O projeto é muito maior do que o simples domínio do território"
O CV já controla cerca de 60% das comunidades do Rio. Para a polícia, a conquista da hegemonia territorial restante poderia ampliar o poder económico da facção e intensificar o envio de drogas para a Europa e África.
"Se eles avançarem nessas áreas, vão ter mais rentabilidade. A partir do momento que ocuparem esse território, ele se tornaria uma passagem para armamento e droga. Eles conseguiriam construir um corredor de passagem", afirmou Saback. "O projeto de expansão do CV é muito maior do que o simples domínio do território. É também controle e hegemonia das rotas. Incluindo expansão marítima, alcançando o Porto de Itaguaí, o porto daqui da capital, a Baía de Guanabara, que tem ali próximo o Complexo do Salgueiro, onde o CV já está. Dali, já se consegue acessar a Niterói-Manilha, subir para a Região Serrana, ir para o Norte do estado", acrescentou o delegado, sublinhando que o objetivo é "também o controle de rotas, até para proporcionar um aumento do tráfico internacional, mandando droga para Europa e África, onde a monetização é muito maior."
No sentido contrário, a abertura de corredores com acesso ao mar facilitaria igualmente a entrada de armas e munições para o arsenal do CV.
Arsenal: centenas de fuzis e operações em grande escala
As armas e drogas provenientes de países fronteiriços chegam ao Rio por três rotas, sendo a principal conhecida como Rota do Norte ou Transamazônica. O material parte da região próxima à Venezuela, atravessa a Amazônia pelos rios Negro e Solimões e pelo Pará, até atingir o Centro-Oeste e, depois, o Sudeste.
Não existe uma estimativa consolidada do arsenal do CV no Rio. Contudo, só na Rocinha, durante uma operação realizada em junho de 2025 pelo Ministério Público do Ceará e policiais do Rio, 400 homens armados com fuzis foram flagrados a fugir do cerco através de uma área de mata, imagens captadas por drone com câmera de baixa luminosidade. No mesmo ano, mais de 90 fuzis foram apreendidos nos Complexos da Penha e do Alemão, após uma ação que resultou em 122 mortos — 117 suspeitos e cinco policiais.
Lavagem de dinheiro e criptoativos financiam a expansão
Para financiar a compra de armamento e munições, o CV recorre a atividades ilícitas como roubos, extorsões e venda clandestina de sinais de televisão por cabo e de internet. Em março deste ano, uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) desmantelou um esquema de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro, alegadamente gerido por pessoas com ligações ao CV, que movimentou 136 milhões de reais num único ano.
Investigações já confirmaram que a facção lavava dinheiro de origem criminosa através de criptoativos. Em junho, a corporação anunciou a criação do Núcleo de Apoio às Investigações com Ativos Virtuais (NuCripto), destinado a apoiar as delegacias que investigam movimentações financeiras deste tipo por parte de criminosos. A iniciativa surgiu após a identificação de fazendas clandestinas de mineração de criptomoedas — uma delas encontrada pela polícia a 22 de maio, no Complexo do Lins.
Source: CNN Portugal