Crise no STF: Alexandre de Moraes investigado após revelação de mensagens com banqueiro preso

O Supremo Tribunal Federal do Brasil enfrenta a maior crise da sua história após a divulgação de mensagens entre o juiz Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso por fraude e corrupção.

Crise no STF: Alexandre de Moraes investigado após revelação de mensagens com banqueiro preso

Sessão extraordinária no STF coloca Moraes no centro da maior crise do tribunal brasileiro

O Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) realiza esta terça-feira, às 10h00 de Brasília (14h00 em Lisboa), uma sessão extraordinária para votar o pedido de abertura de investigação contra o juiz Alexandre de Moraes. Conforme reporta sicnoticias.pt, a crise teve início no começo de setembro, quando o juiz André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que identificava mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso por fraude e corrupção.

A sessão está envolta em disputas internas e incertezas. Os aliados de Mendonça articulam uma estratégia para pressionar o tribunal a votar a favor da investigação, enquanto os aliados de Moraes podem tentar paralisar o julgamento para evitar um desfecho desfavorável. O episódio ocorre a menos de um mês da primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, que se preveem tão disputadas quanto as de 2022.

O relatório que abalou o judiciário

A decisão de Mendonça de retirar o sigilo do relatório caiu como uma bomba na política brasileira. O documento demonstrava uma alegada proximidade entre o magistrado e o banqueiro. Desde o ano anterior já existiam suspeitas sobre essa relação: o jornal O Globo havia revelado que o escritório da mulher de Alexandre de Moraes mantinha um contrato com o Banco Master avaliado em 131 milhões de reais — cerca de 22 milhões de euros —, valor considerado acima do praticado no mercado. Moraes sempre negou irregularidades.

O relatório da Polícia Federal revelou, porém, que o próprio juiz chegou a editar esse contrato. O escritório de advocacia explicou à Folha de São Paulo tratar-se de um procedimento padrão para evitar conflito de interesses. As mensagens de texto divulgadas tiveram, contudo, maior repercussão pública.

Mensagens comprometem banqueiro e levantam suspeitas sobre Moraes

Segundo a Polícia Federal, Daniel Vorcaro demonstrou em vários momentos ter conhecimento de investigações em curso contra si e manifestou preocupação com as mesmas. "O problema agora é que tive informações informais e em confidência da turma do Banco Central, que o G [possível referência a Gabriel Galípolo, presidente do BC] e os diretores estão na pressão máxima de novo para uma medida, pois o Bacen está sendo muito pressionado pela PF e MP, alegando que farão algo contra mim", escreveu o banqueiro a 30 de outubro de 2025.

Na sequência, Vorcaro pediu ao magistrado que intercedesse junto das autoridades nacionais: "É importante reforçar com Andrei [possível referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal] e Paulo [possivelmente Paulo Gonet, procurador-geral da República] para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem."

As investigações da Polícia Federal indicam que alguns diretores do Banco Central recebiam pagamentos para fornecer informações ao banqueiro. Vorcaro teve ainda acesso antecipado a ações sigilosas do Ministério Público relacionadas com a instituição.

Outros trechos obtidos pela PF sugerem que Moraes teria enviado informações confidenciais a Vorcaro. Dois dias antes de ser detido pela primeira vez, o banqueiro perguntou: "Acha que segunda já tenho de estar fora?". Mais tarde, já no aeroporto à espera de deixar o país para evitar a prisão, questionou: "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?".

Confronto entre magistrados e guerra interna no tribunal

Ainda antes da divulgação do relatório, o caso já gerava desconforto no interior do STF. A 31 de agosto, segundo o portal Metrópoles, Moraes pediu uma reunião com Mendonça na qual questionou o facto de estar a ser investigado, encontro que resultou numa discussão intensa entre os dois.

A decisão de Mendonça foi também recebida com desconforto pela Polícia Federal. De acordo com a Folha de São Paulo, a determinação foi apresentada de surpresa durante uma reunião interna e gerou o receio de que a investigação sobre autoridades pudesse causar a nulidade das provas. Houve ainda quem considerasse que o juiz estava a assumir um papel que caberia à própria PF.

Um juiz do STF apenas pode ser investigado com o aval do plenário da instituição — algo que não ocorreu antes da ordem para a produção do relatório. Com esse fundamento, Paulo Gonet, procurador-geral da República, pediu a nulidade do documento. Alfredo Attié, presidente da Academia Paulista de Direito, consultado pela CNN Portugal, concorda com a posição da PGR e vê "erros graves" nas ações de Mendonça.

Gonet também aparece nas mensagens

O próprio procurador-geral da República surge nas mensagens divulgadas por Mendonça. Segundo a Polícia Federal, Gonet teria afirmado ter "saudades" de Vorcaro e viajou para Londres com despesas pagas pelo Banco Master para uma degustação de uísque.

Moraes retalia através do inquérito das Fake News

Dois dias após a divulgação das mensagens, Alexandre de Moraes atuou para contra-atacar. Através do inquérito das Fake News — processo aberto em 2019 para investigar a divulgação de informações falsas contra membros do STF, na época sob a sua responsabilidade —, o magistrado acusou Mendonça de abuso de autoridade e de favorecer determinados grupos políticos, pedindo a abertura de uma investigação para apurar as situações.

Para fundamentar a decisão, Moraes utilizou relatórios da Polícia Federal que indicavam que Mendonça tomava decisões distintas consoante o visado. O próprio documento ressalva, em vários pontos, não ter valor probatório.

Posteriormente, a Folha de São Paulo noticiou que os referidos relatórios tinham sido produzidos de forma irregular, acrescentando mais um capítulo a uma crise que paralisa o principal órgão do judiciário brasileiro a semanas de uma das eleições presidenciais mais decisivas dos últimos anos.

Source: Google News PT — Crime (pt)

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