Narcogarimpo na Amazônia: crime organizado e desmatamento avançam juntos, aponta estudo
Estudo do IISS aponta que garimpo ilegal na Amazônia alimenta redes criminosas e responde por até 15% do desmatamento regional.
Garimpo ilegal ameaça soberania territorial e saúde pública na Amazônia, alerta think tank
O garimpo ilegal na Amazônia deixou de ser apenas uma questão ambiental para se tornar uma ameaça à segurança nacional, à saúde pública e à soberania territorial do Brasil. A conclusão é de um estudo de caso do International Institute for Strategic Studies (IISS), publicado em 5 de setembro de 2026 e reportado por exame.com.
O levantamento foi elaborado pelas especialistas Irene Mia e Fernanda Rios Herrera e analisa a expansão da extração ilícita de ouro, sua relação com crimes ambientais e a infiltração de redes criminosas na região.
Desmatamento e mercúrio: os rastros físicos do garimpo
Práticas insustentáveis de mineração de ouro respondem por entre 10% e 15% da perda total de floresta na Amazônia, segundo o estudo. O Brasil concentra mais de 60% da floresta amazônica e cerca de 85% da perda florestal da região — apesar de quedas recentes nos índices de desmatamento. Os estados do Amazonas, do Pará e de Roraima são os mais afetados pela expansão das atividades garimpeiras.
A abertura de áreas para acessar depósitos de ouro e a construção de infraestrutura para transporte de equipamentos e combustíveis aceleram diretamente o desmatamento. A destruição de habitats agrava a perda de biodiversidade em uma região que abriga cerca de 30% das espécies do planeta e é considerada essencial para o equilíbrio climático global.
A contaminação por mercúrio representa outro impacto crítico. Utilizado para separar o ouro dos sedimentos, o metal chega a rios, ao solo e ao ar, podendo se transformar em metilmercúrio — substância altamente tóxica que penetra na cadeia alimentar e afeta comunidades que dependem da pesca, da caça e da agricultura. Apesar de a Convenção de Minamata, ratificada em 2016, proibir as importações do elemento, toneladas do metal continuam chegando ao Brasil de forma clandestina, provenientes de países como Índia, México e Tajiquistão.
Ouro informal e escala industrial disfarçada de garimpo
A mineração tem peso relevante na economia brasileira: respondeu por quase 20% da receita total de exportações em 2024. O ouro representa cerca de 2% desse total, mas sua produção cresceu 27,6% em relação ao ano anterior, impulsionada pelos preços internacionais e pela demanda global por ativos considerados seguros.
O problema central, aponta o IISS, é que o garimpo — atividade legalmente autorizada em pequena escala — passou a operar com níveis de mecanização e escala próximos aos da mineração industrial. O modelo regulatório, criado para operações menores, ficou defasado diante dessa transformação.
O estudo estima que cerca de 34% do ouro produzido no Brasil entre 2021 e 2022 teve origem irregular. Medidas de rastreabilidade adotadas entre 2022 e 2025 reduziram a cifra para aproximadamente 8% do total oficial, mas a atividade continuou avançando sobre áreas protegidas. Em 2022, cerca de 77% das áreas de garimpo identificadas apresentavam sinais de ilegalidade, incluindo operações em terras indígenas e reservas ambientais sem as autorizações necessárias. As terras dos povos Kayapó, Munduruku e Yanomami foram especialmente afetadas.
Crime organizado controla logística do "narcogarimpo"
O IISS identifica uma convergência entre o garimpo ilegal e outras formas de crime: tráfico de drogas e de pessoas, trabalho forçado, exploração sexual, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de mercúrio e de armas. Esse fenômeno é descrito por especialistas como "narcogarimpo".
Grupos criminosos não necessariamente extraem ouro diretamente, mas controlam a logística que viabiliza as operações — combustível, transporte, pistas clandestinas, equipamentos e até acesso à internet. O transporte e a distribuição de mercúrio em território brasileiro caem nas mãos dessas redes, que têm forte presença no setor.
O estudo cita o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como protagonistas brasileiros do crime organizado na região amazônica, além de organizações estrangeiras como as FARC, da Colômbia, e grupos regionais. Essas facções vêm ampliando sua atuação nas rotas de abastecimento e nos mercados associados à mineração ilegal.
A própria geografia amazônica agrava o cenário: grandes distâncias, fronteiras porosas e presença limitada do Estado criam condições favoráveis à informalidade. A pobreza estrutural torna a exploração de recursos naturais uma alternativa econômica para comunidades sem acesso a outras fontes de renda, incluindo aldeias indígenas.
IISS defende estratégia além das operações policiais
Na avaliação do IISS, combater o garimpo ilegal exige uma abordagem que vai além de operações de fiscalização. A estratégia precisa combinar repressão com formalização do setor e políticas de desenvolvimento para as populações vulneráveis da região.
A alta dos preços das commodities e a elevada informalidade do setor continuam ampliando os incentivos a novas operações clandestinas, dificultando o combate efetivo às atividades ilegais na Amazônia.
Source: Google News BR — Crime