Cocktail molotov junto à Assembleia da República: suspeito detido fica em liberdade

Um homem de 39 anos foi detido após atirar um cocktail molotov durante a Marcha pela Vida em Lisboa. O engenho não deflagrou e o suspeito saiu em liberdade com apresentações diárias obrigatórias.

Cocktail molotov junto à Assembleia da República: suspeito detido fica em liberdade

Cocktail molotov na Marcha pela Vida: suspeito identificado como ligado a grupo anarquista

A Marcha pela Vida estava perto do fim quando, junto à escadaria da Assembleia da República em Lisboa, o som de uma garrafa de vidro a partir no chão quebrou as conversas dos manifestantes. A garrafa era um cocktail molotov. O engenho incendiário não deflagrou — o que, segundo a PSP, evitou ferimentos entre os presentes —, mas o cheiro a gasolina dissipou rapidamente quaisquer dúvidas sobre a natureza do objeto.

Segundo a CNN Portugal, o suspeito, um homem de 39 anos, terá sido intercetado pelos próprios manifestantes antes de a polícia entrar em ação. Alguns testemunhos indicam que o indivíduo também terá regado pessoas com combustível, embora a polícia não tenha confirmado essa versão dos factos.

Grupo com "conotação anarquista" identificado pela PSP

O suspeito não atuou sozinho. A PSP referiu que fazia parte de um "grupo alegadamente de conotação anarquista". Enquanto era detido, os restantes elementos do grupo fugiram do local. Três deles foram posteriormente intercetados pelas autoridades já afastados do Parlamento e identificados.

O detido permaneceu sob custódia durante o fim de semana. Esta segunda-feira conheceu as medidas de coação aplicadas pelo tribunal: saiu em liberdade, mas ficou obrigado a apresentar-se diariamente às autoridades e proibido de frequentar as imediações da Assembleia da República. "Após o interrogatório [em tribunal], foi indiciado pelo crime de detenção de arma proibida e sujeito às medidas de coação de apresentações diárias às autoridades e proibição de frequentar as imediações da Assembleia da República", indicou a Procuradoria-Geral da República em resposta à agência Lusa.

Reações políticas e debate público

O incidente marcou o debate político no fim de semana. A Iniciativa Liberal condenou o que classificou como "tipo de violência política extremista". O CDS pediu à Assembleia da República que condenasse um ataque que, nas suas palavras, "podia ter sido verdadeiramente trágico". O Chega foi mais longe e exigiu ao Governo que classifique a Antifa como "organização terrorista". O PSD convocou o novo ministro da Administração Interna, Luís Neves, para prestar esclarecimentos sobre o incidente perante os deputados.

Nuno Marques Afonso, um dos coordenadores da marcha, descreveu o sucedido num vídeo publicado nas redes sociais: "Depois de uma manifestação pacífica, com várias crianças aqui à volta, aquele indivíduo que estava no chão atirou uma garrafa molotov que por sorte não acendeu para cima de crianças. (…) Não cabe na cabeça de ninguém atirar gasolina a arder para cima de crianças."

Ameaça anarquista já sinalizada pelas autoridades

Especialistas em segurança interna e terrorismo consultados pelo Observador consideram que apenas intervenções policiais de maior envergadura permitirão travar uma ameaça que, apesar da sua aparente desorganização, tem potencial de crescimento.

A ameaça não era desconhecida. A Europol, no seu último relatório dedicado ao terrorismo, descrevia precisamente o perfil de atuação observado junto ao Parlamento: "meios baratos e pouco sofisticados, como atear fogo e usar inflamáveis, provaram-se táticas extremamente eficientes para os extremistas e terroristas anárquicos e de extrema-esquerda."

Em Portugal, a questão chegou a constar numa versão de trabalho do Relatório Anual de Segurança Interna, num capítulo que acabou por não ser publicado. O documento reconhecia que "a expressão dos grupos de extrema-esquerda e do movimento anarquista não tem assumido, em termos de criminalidade violenta e organizada, relevância significativa em Portugal", mas alertava que "estes grupos e movimentos têm vindo a alcançar maior visibilidade atendendo ao contexto de vulnerabilidade económica e social vigente."

A Marcha pela Vida e o contexto da manifestação

A Marcha pela Vida é uma iniciativa organizada anualmente pela Federação Portuguesa pela Vida desde 2012, na sequência de um movimento nascido em 1998 a propósito do referendo sobre o aborto realizado nesse ano. Este ano, a marcha decorreu em simultâneo em 12 cidades portuguesas. A organização descreve-se como aberta a todos, independentemente de crença religiosa, embora as posições contra o aborto e a eutanásia contem com forte apoio de setores católicos.

Uma semana antes da marcha, o Papa Leão XIV enviou uma mensagem de "vivo reconhecimento" aos participantes. Num documento assinado pelo arcebispo Edgar Peña Parra e citado pela agência Ecclesia, o Papa afirmou que "não servem para o desenvolvimento das nossas sociedades discursos de descarte nem meras declarações de boas intenções nem muito menos formas ilusórias de compaixão, como é o caso da eutanásia e, em última análise, do aborto."

Nos relatos partilhados nas redes sociais após o incidente, uma mulher que transportava um bebé de três meses ao colo descreveu ter visto um "homem de cara tapada" com uma garrafa nas mãos, momentos antes do lançamento do engenho incendiário.

Source: CNN Portugal

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