Designer acusado de dez crimes terroristas por atirar molotov na Marcha pela Vida em Lisboa
Nelson Vassalo preparou um cocktail molotov em casa e lançou-o contra manifestantes pró-vida junto à Assembleia da República. O MP acusa-o de dez crimes de infração terrorista.

Designer preparou molotov em casa e atacou manifestantes pró-vida junto ao Parlamento
Na manhã de 21 de março, Nelson Vassalo dirigiu-se a uma bomba de gasolina com um cantil de plástico e alegou que o combustível era para uma mota que não possuía. Os 1,02 litros custaram-lhe dois euros.
De regresso a casa, verteu a gasolina para uma garrafa de vidro que tapou com um tecido inflamável, guardando-a num tote bag juntamente com um isqueiro. Trocou para um casaco preto com capuz e preparou-se para a Marcha pela Vida — onde usaria o engenho. Segundo o despacho de acusação a que o observador.pt teve acesso, a chama "apagou-se antes de se propagar à gasolina por razões alheias à vontade do arguido".
O Ministério Público sustenta que, a ter deflagrado, o cocktail molotov teria causado "lesões graves ou mesmo a morte a pessoas atingidas ou expostas à sua ação". A motivação, segundo a procuradora Cláudia Porto, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), era o ódio: as vítimas faziam "parte da que referia ser burguesia podre, filhos das elites dos sistemas ou betos, os mais favorecidos à nascença", que Vassalo associava à direita conservadora, aos capitalistas e a proprietários que odiava.
Nelson Vassalo foi detido e libertado num primeiro momento, mas ficou em prisão preventiva menos de um mês depois do ataque. O Ministério Público acusa-o de dez crimes de infração terrorista.
Radicalização iniciada em 2021
A investigação concluiu que a radicalização de Vassalo, designer gráfico e ativista ligado ao Movimento Okupa e à questão da habitação, teve início em 2021. No seu computador, as autoridades encontraram um manual de guerrilha urbana que classificava os cocktails molotov como "essenciais" para atuações terroristas.
Em mensagens trocadas com amigos e familiares, mencionou estes engenhos pela primeira vez quatro anos antes do ataque. Em 2022, numa troca de mensagens antes de um protesto, respondeu a uma amiga: "Traz os molotov." Segundo o MP, esses contactos "alimentaram e validaram fortemente o seu extremismo".
O Ministério Público descreve a atuação como motivada "unicamente pela convicção político-ideológica de extrema-esquerda, visando a luta política armada violenta, através do uso do fogo, deliberada e exclusivamente contra aqueles manifestantes que odiava".
Oito minutos a estudar a multidão
No dia do ataque, Vassalo começou por participar na manifestação Já não Dá!, organizada por movimentos defensores do direito à habitação, onde permaneceu até às 17h28. Seguiu depois de bicicleta até à Calçada da Estrela, onde chegou menos de 15 minutos depois.
Segundo o Ministério Público, sentou-se num muro, ao lado de um cipreste, durante oito minutos. Estudou a multidão de cerca de 390 pessoas que, nas palavras da acusação, "defendiam o que entendiam ser a dignidade da vida humana desde a conceção até à morte natural, manifestando-se contra práticas como o aborto, a eutanásia e o suicídio medicamente assistido". Entre os presentes estavam adultos, jovens, crianças e bebés.
Cobriu a cara com a gola, ateou fogo ao saco impregnado com gasolina e lançou o engenho. Uma manifestante apercebeu-se do gesto e correu na sua direção, mas foi travada por outra pessoa. O saco percorreu cerca de dez metros na direção de pelo menos oito manifestantes, parados a três metros da escadaria da Assembleia da República.
"Naquele momento, o arguido reafirmou a sua intenção de assustá-los, de impor, pela força e pelo terror, as suas convicções e a sua ideologia", lê-se na acusação do MP.
Bebé de quatro meses e mulheres encharcadas de gasolina
O cocktail molotov não explodiu porque embateu no braço de uma manifestante — que se preparava para acender um cigarro — e nas costas de outra, que se virou para proteger o bebé de quatro meses que tinha ao colo. A garrafa não se partiu, mas deixou as duas mulheres encharcadas de combustível: uma delas ficou com as costas e o cabelo a escorrer gasolina.
Segundos depois, Vassalo foi placado e pontapeado por um manifestante. A PSP deteve-o pouco depois. Avaliado no hospital, não apresentou alterações psicopatológicas.
Origem humilde como motor do ódio de classe
A acusação traça a origem do ódio de Vassalo pela chamada "burguesia podre" à sua perceção de que a origem familiar, "marcada por recursos económicos limitados", o tinha obrigado a "enfrentar maiores dificuldades e a realizar um esforço superior ao de pessoas de meios mais favorecidos". Foi no ensino superior, que frequentou através de bolsas de estudo, que mais "teve consciência de que era pobre" em comparação com os restantes alunos, o que alimentou um "crescente sentimento de revolta pela injustiça perante as desigualdades socioeconómicas".
Militante do PS desde 2024 — entretanto suspenso do partido —, Vassalo escreveu nesse mesmo ano um manifesto em que se definia como "convicto social-[democrata]". A defesa contesta a motivação "ideológica" descrita pelo MP e afirma que o arguido alega ter pretendido atingir a escadaria do Parlamento, não as pessoas.
Source: Google News PT