Casal acusado de envenenar 10 pessoas em Parnaíba mantido preso após audiência
A Justiça manteve a prisão preventiva de Francisco de Assis e Maria dos Aflitos, réus pelo envenenamento de 10 pessoas no Piauí, oito das quais morreram.

Réus negam crimes e atribuem responsabilidade a uma das vítimas fatais
A Justiça manteve a prisão preventiva de Francisco de Assis Pereira da Costa e Silva e Maria dos Aflitos Silva após audiência de instrução e julgamento realizada na última sexta-feira (5), reporta g1.globo.com. O casal responde pelo envenenamento de dez pessoas em Parnaíba, no litoral do Piauí — oito das quais não sobreviveram.
Os réus são acusados de envenenar oito familiares, uma vizinha e o filho desta. Dois dos envenenados conseguiram sobreviver. O casal responde por 11 crimes: oito homicídios qualificados e três tentativas de homicídio qualificado, e permanece preso desde janeiro deste ano.
Maria dos Aflitos nega envolvimento e recua em confissão anterior
Maria dos Aflitos prestou depoimento por cerca de 20 minutos. Negou qualquer participação nos crimes contra os familiares e afirmou acreditar que a vizinha Lucélia Maria — inicialmente presa como principal suspeita do caso — teria sido a responsável pelas mortes ocorridas em agosto de 2024.
Contudo, quando outras cinco pessoas da família morreram após comer arroz envenenado no dia 1.º de janeiro de 2025, a ré declarou ter desconfiado do próprio companheiro e da amiga Maria Jocilene da Silva. Disse também não ter consumido o arroz por estar de ressaca.
"Acreditava que tinha sido ela [a vizinha], mas quando aconteceu as outras mortes, desconfiei do 'de Assis', e foi o 'de Assis' que matou meus filhos, eu não tenho culpa, não tenho envolvimento. Eu tô pagando uma coisa que não devo", declarou na audiência.
A afirmação contraria o depoimento que a ré prestou à polícia em 31 de janeiro, quando, segundo o processo, chegou a confessar ter matado Maria Jocilene para livrar Francisco de Assis de acusações. Na audiência, recuou e alegou que, à época, estava com "muita coisa na cabeça".
Maria dos Aflitos negou ainda qualquer relacionamento amoroso com a vítima Maria Jocilene, apontado pela Polícia Civil durante a investigação. "Nunca tive nada a ver, nunca me envolvi com a 'Joice'. Éramos apenas amigas", afirmou.
O delegado Abimael Silva, da Polícia Civil de Parnaíba, detalhou em depoimento que Maria dos Aflitos chegou a sorrir ao relatar que Maria Jocilene havia morrido por um problema no coração.
Francisco de Assis depõe por uma hora e aponta a mesma vítima
Francisco de Assis prestou depoimento por cerca de uma hora. Também atribuiu a responsabilidade pelos crimes a Maria Jocilene da Silva, uma das vítimas fatais. Descreveu o que, segundo ele, ocorreu em 23 de agosto de 2024, quando dois meninos — Ulisses Gabriel da Silva, de 8 anos, e o irmão João Miguel da Silva, de 7 anos — foram internados com suspeitas de envenenamento.
"João Miguel morreu no dia 22 de agosto. Esse menino era muito querido pra mim. O outro [Ulisses] morreu 10 de novembro. Era meio danadinho, mas tinha hora que tava melhor e era carinhoso. Eu dava o mesmo amor", disse o réu.
Sobre a suspeita que recai sobre si próprio, Francisco de Assis afirmou: "Eu suspeito todo o tempo da Jocilene. Quando o menino começa a passar lá em casa, Jocilene vai e chega junto. Parece combinado."
Questionado por que estaria a proteger Maria dos Aflitos, respondeu: "Eu tenho pena das pessoas, meu coração é tão bom. Eu acho que é o lado cristão, só pode."
Audiência havia sido adiada para realização de perícia
A audiência estava inicialmente marcada para 30 de julho, mas foi adiada pelo juiz Willmann Izac Ramos Santos a pedido da Defensoria Pública do Piauí, que solicitou a realização de exame de sanidade mental em Francisco de Assis. O laudo, divulgado na terça-feira (2), confirmou que o réu é mentalmente são.
A defesa de Maria dos Aflitos também pediu o adiamento, argumentando que a prisão dela em Teresina dificultaria a sua participação presencial na audiência. A ré chegou a ser convocada para depor por videoconferência.
As vítimas do envenenamento
O Ministério Público considera que uma das vítimas foi alvo, em momentos distintos, de tentativa de homicídio e de homicídio consumado — daí o total de 11 crimes para dez pessoas envenenadas. As vítimas identificadas são:
- Manoel Leandro da Silva, 18 anos (filho de Maria dos Aflitos e enteado de Francisco de Assis) — morto
- Francisca Maria da Silva, 32 anos (filha de Maria dos Aflitos e enteada de Francisco de Assis) — morta
- Ulisses Gabriel da Silva, 8 anos (filho de Francisca Maria) — morto
- João Miguel da Silva, 7 anos (filho de Francisca Maria) — morto
- Maria Gabriela da Silva, 4 anos (filha de Francisca Maria) — morta
- Lauane da Silva, 3 anos (filha de Francisca Maria) — morta
- Igno Davi da Silva, 1 ano e 8 meses (filho de Francisca Maria) — morto
- Maria Jocilene da Silva, 32 anos (ex-nora de Maria dos Aflitos) — recebeu alta, voltou a ser hospitalizada 20 dias depois e morreu, também por suspeita de envenenamento
- Uma adolescente de 17 anos (irmã de Manoel e Francisca Maria) — recebeu alta
- Um menino de 11 anos (filho de Maria Jocilene) — recebeu alta
Cronologia do caso
Em 23 de agosto de 2024, Ulisses Gabriel e João Miguel foram internados com suspeitas de envenenamento. João faleceu poucos dias depois; Ulisses morreu em setembro. A vizinha Lucélia Maria chegou a ser presa em flagrante como principal suspeita, tendo negado os crimes.
No dia 1.º de janeiro de 2025, nove pessoas da mesma família ingeriram arroz envenenado com terbufós, substância tóxica semelhante ao chumbinho. As mortes que se seguiram levaram as investigações a apontar o casal como responsável pelos envenenamentos.
Source: Google News PT — Crime (pt)