Facções armadas controlam 31% do Rio e avançam na política nacional
Comando Vermelho e PCC estão presentes em 26 dos 27 estados brasileiros. Segurança pública domina debate na eleição presidencial de outubro.

Facções dominam território e política enquanto eleição presidencial se aproxima
Logo na entrada da academia de artes marciais de Thiago Braga, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, uma barricada controlada por uma facção do tráfico filtra quem pode circular pela rua. Três jovens com no máximo 16 ou 17 anos, vestindo camisas da seleção brasileira, seguram fuzis automáticos de uso militar — as alças tão compridas que as armas ficam abaixo da cintura.
"Até poucos anos atrás, era possível andar livremente por esta rua, mas agora há três barricadas ao longo dela", afirma Braga, morador do complexo de mais de uma dezena de favelas da Penha. "Se os garotos da barricada são mortos, outros ocupam o lugar deles. É um processo sem fim — e o Estado está, em grande parte, ausente."
Conforme reportagem de www1.folha.uol.com.br, a Penha é uma das bases do Comando Vermelho, o maior grupo armado do Rio, e ilustra com precisão o fenômeno que reorganizou a política brasileira em torno da demanda por segurança pública.
31% da cidade sob controle armado
Uma pesquisa do Instituto Fogo Cruzado em parceria com a Universidade Federal Fluminense aponta que 31% do território da cidade do Rio de Janeiro está atualmente sob controle direto ou influência de grupos armados. Essas áreas abrigam mais de 40% da população — quase 3 milhões de pessoas. Desde 2008, período em que o Rio sediou a final da Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o território desses grupos mais que dobrou.
As facções do tráfico se expandiram continuamente desde os anos 1980, quando começaram a controlar algumas favelas, à medida que o Brasil passou a desempenhar papel mais importante no comércio mundial de cocaína. Do Rio, o problema ganhou dimensão nacional: o Comando Vermelho está presente em 26 das 27 unidades da Federação, de acordo com o Ministério da Justiça. O PCC (Primeiro Comando da Capital), maior facção de São Paulo, também marca presença em 26 estados.
Pesquisadores acreditam que ambas as organizações têm hoje mais integrantes do que os mais conhecidos cartéis da Colômbia e do México. Os Estados Unidos classificaram as duas como organizações terroristas estrangeiras.
Infiltração na política
O poder dessas organizações vai além do controle territorial. Em março, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), foi preso e aguarda julgamento sob acusação de atuar em favor do Comando Vermelho.
"É esse fenômeno que está me tirando o sono", diz Robert Muggah, especialista em segurança do Instituto Igarapé, no Rio. "Temos uma situação em que redes criminosas estão se infiltrando nos órgãos políticos do Estado. [...] O crime organizado está se espalhando como uma metástase do Rio e de São Paulo para o restante do Brasil, o que é algo fundamentalmente novo."
Eleição presidencial pautada pela violência
A percepção de que as autoridades brasileiras foram negligentes no enfrentamento aos grupos armados é apontada como uma das principais razões para a ascensão do movimento populista de direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e natural do Rio, terminou o primeiro turno na liderança e está em posição de vantagem para vencer a eleição presidencial de 25 de outubro.
Bolsonaro promete operações policiais mais agressivas e megapenitenciárias para integrantes de facções. Críticos, porém, argumentam que é exatamente essa a estratégia adotada pelo Brasil há três décadas — sem resultado. O Rio já registra uma das maiores taxas de mortes provocadas pela polícia no mundo.
No ano passado, uma operação policial na Penha e no Alemão, complexo de favelas vizinho, matou mais de 120 pessoas durante tentativa de prender líderes de facções — a operação mais letal da história brasileira. Muitos corpos foram deixados em um terreno no morro atrás da academia de Braga. O Comando Vermelho, contudo, não foi retirado das favelas.
Carolina Christoph Grillo, professora da Universidade Federal Fluminense, afirma que a ascensão dos grupos armados vem "se desenvolvendo lentamente há décadas e poderia ter sido interrompida se políticas mais eficazes tivessem sido adotadas". Ela acrescenta que, se Bolsonaro vencer, "vamos dobrar a aposta em algo que sabemos que não funciona e que, na verdade, agrava o problema".
Controle cotidiano nos territórios dominados
Poucos lugares da América Latina apresentam a mesma escala, diversidade e ousadia na atuação de grupos criminosos que o Rio de Janeiro. O Comando Vermelho é a maior de três facções do tráfico com forte presença nas zonas leste e norte da cidade. A zona oeste é dominada pelas chamadas milícias: grupos fundados por ex-policiais inicialmente para expulsar facções dos bairros, mas que migraram para esquemas de extorsão e, posteriormente, para o tráfico de drogas.
Nas áreas que controlam, esses grupos regulam muitos aspectos da vida cotidiana. Além de decidir quem pode entrar, costumam tratar com brutalidade crimes como a violência sexual. As regras podem incluir proibições de motocicletas barulhentas ou de manobras perigosas em vias movimentadas.
Em determinado momento, na Penha, o Comando Vermelho chegou a proibir o uso de camisas do Chelsea porque o nome do patrocinador do clube na época — a empresa de telecomunicações Three — remetia a uma facção rival do Rio, o Terceiro Comando Puro.
Há escolas e unidades de saúde nessas áreas, mas a presença policial se limita a incursões ocasionais de caráter militar. O fenômeno, que começou como um problema local do Rio, transformou-se em questão estrutural nacional — e em combustível central da disputa pelo poder no Brasil.
Se a imigração foi o tema que impulsionou a guinada à direita nos Estados Unidos e na Europa, em grande parte da América Latina foi a demanda dos eleitores por enfrentamento aos grupos armados que reconfigurou o mapa político — e o Brasil de 2026 é o exemplo mais visível dessa tendência.
Source: Google News BR — Crime