Suspeito afirma que PMs entregaram camisetas do PT durante abordagem em Piracicaba
Um jovem de 21 anos preso por tráfico declarou à Polícia Civil que policiais militares mandaram os detidos vestir camisetas do PT. O caso está sob investigação da Corregedoria da PM.

Depoimento aponta que PMs distribuíram uniformes partidários antes da chegada à delegacia
Um jovem de 21 anos detido em flagrante por tráfico de drogas em Piracicaba (SP) na quarta-feira (21) declarou à Polícia Civil que policiais militares ordenaram durante a abordagem que ele e os demais suspeitos vestissem camisetas em alusão à campanha do presidente Lula. O relato foi obtido pelo g1.globo.com.
"Questionado em relação à camiseta branca de cunho político que ostentava ao chegar nesta delegacia, afirma que quando todos foram abordados, em determinado momento, os policiais acharam essas camisetas jogadas em algum barraco da viela e falaram para vestir", cita trecho do depoimento. O jovem acrescentou que não sofreu violência física ou psicológica.
Na quinta-feira (22), a Justiça determinou a soltura do jovem, com imposição de medidas cautelares. O segundo suspeito, de 24 anos, permaneceu preso. O terceiro envolvido, um adolescente de 17 anos, foi encaminhado a uma unidade da Fundação Casa.
As medidas cautelares impostas ao jovem liberado incluem comparecimento bimestral ao juízo, proibição de frequentar bares e estabelecimentos similares, e proibição de se ausentar da comarca por mais de oito dias sem autorização judicial.
Testemunhas contradizem versão inicial
Repórteres do g1.globo.com estiveram no local na manhã desta quinta-feira e ouviram testemunhas que afirmam que o trio não usava camisetas do PT no momento da abordagem.
"Um estava todo de cinza, um de moletom todo azul, boné e o outro estava de bermuda jeans a camiseta branca", descreveu uma das testemunhas. Segundo ela, a ação policial ocorreu pela manhã e ela acordou com o barulho, com duas viaturas e cerca de seis agentes no local.
A testemunha também relatou agressões. "Eles botaram todos no corredor, sentados e começaram a bater. Depois pegou um, algemou, levou aqui em cima, aí disse que apareceu uma arma ali, não sei se apareceu mesmo. Quando chegou lá, a menina tem uma irmã, a irmã correu gritando a mãe e ele deu um soco na menina."
Campanha do PT confirma origem das camisetas
Duas mulheres contratadas pela campanha do Partido dos Trabalhadores que residem na comunidade onde ocorreu a abordagem afirmaram que os policiais tomaram delas os uniformes de trabalho para colocá-los nos suspeitos.
A deputada estadual Professora Bebel (PT), que denunciou publicamente o caso, confirmou ao g1.globo.com que as camisetas são uniformes distribuídos exclusivamente a pessoas contratadas para trabalhar na campanha. Bebel informou ainda que ingressou com representação na Corregedoria da PM.
A mãe do jovem apreendido afirmou que o filho é usuário de drogas, não traficante, e que não tem envolvimento com atividade política. Ela também declarou que policiais invadiram sua residência durante a ação. "Eles falaram pra mim que não era pra vir atrás. Aí eles deram um soco no peito da minha filha de 14 anos."
Defesa dos PMs contesta as acusações
A advogada Joice Vanessa dos Santos, que integra a defesa de um dos policiais militares envolvidos, afirmou que as acusações "não retratam adequadamente o contexto da ocorrência nem a atuação dos policiais". Santos declarou ser necessário esclarecer as circunstâncias da abordagem, os elementos que motivaram a intervenção e a sequência completa dos acontecimentos, e garantiu que os esclarecimentos pertinentes serão apresentados às autoridades competentes.
Repercussão política e investigações abertas
A chegada dos detidos à delegacia foi filmada, e as imagens foram compartilhadas nas redes sociais pelo senador eleito Guilherme Derrite (PP). Em nota, Derrite afirmou que o objetivo da publicação era chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas e que não fez qualquer menção às camisetas. "Quanto às alegações apresentadas posteriormente, Derrite defende que os fatos sejam devidamente apurados pelos órgãos competentes", completou a assessoria.
A publicação de Derrite acumulava mais de 358 mil curtidas e cerca de 25 mil comentários até a última atualização da reportagem.
O vereador Renan Paes (PL) divulgou nas redes sociais um áudio que alega ser a denúncia original via 190, na qual a pessoa que liga menciona as camisetas do PT. A polícia não confirmou a autenticidade da gravação.
O PT solicitou à Procuradoria-Geral da República que o Ministério Público Eleitoral investigue o caso. O Ministério da Justiça também cobrou apuração das circunstâncias da abordagem. A Ouvidoria da PM pediu o afastamento dos policiais envolvidos durante a investigação.
A Defensoria Pública do Estado de São Paulo informou que participou das audiências de custódia dos dois adultos e que os relatos apresentados foram considerados pelo Poder Judiciário na decisão sobre a manutenção das prisões.
Source: Google News BR — São Paulo