Drones viram arma padrão do crime organizado na América Latina, aponta ONG
Relatório da ACLED registrou 670 incidentes com drones armados desde 2018, sendo 72% concentrados entre 2025 e 2026. México, Colômbia e Brasil lideram o fenômeno.

Drones substituem armas convencionais em operações criminosas no continente
Uma bomba despencou do céu durante a "Operação Contenção", realizada nas favelas dos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro do ano passado. Cerca de 2.500 policiais, soldados e atiradores de elite enfrentavam o Comando Vermelho em um labirinto de ruas estreitas quando o artefato, lançado por um drone, teve as forças de segurança como alvo. O episódio, reportado por cnnbrasil.com.br, ilustra um fenômeno que se expande rapidamente por toda a América Latina: o uso de drones como armamento pelo crime organizado.
Registros em alta aceleração
Um relatório da ONG ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) quantifica a escala do problema. A organização contabilizou "cerca de 670 incidentes envolvendo drones armados desde 2018", mas mais de 72% desses eventos ocorreram entre 1º de janeiro de 2025 e 21 de agosto de 2026 — concentração que evidencia uma aceleração abrupta do fenômeno.
Paddy Ginn, especialista sênior da GI-TOC (Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional), classifica o uso atual em cinco categorias: vigilância, logística, ataque, sinalização e coordenação. "Estamos observando uma transição clara do uso experimental de drones por grupos criminosos para um uso operacional estruturado e replicável", afirma Ginn.
Origens nas prisões brasileiras
Os primeiros registros de uso criminoso de drones na América Latina datam de 2014 e estão ligados a presídios, principalmente no Brasil. Segundo o InSight Crime, site especializado em investigações sobre crime organizado, "os drones substituíram os pombos que eram usados anteriormente para entregar mensagens e pequenos pacotes, oferecendo maiores vantagens e fácil acesso a mercadorias do mercado negro — incluindo armas, pacotes de drogas, alimentos, bebidas alcoólicas, celulares e todo tipo de contrabando que encontrava uma rota aérea para entrar nas prisões".
Na última década, os dispositivos migraram das celas para as ruas e se tornaram ferramenta operacional em confrontos abertos.
México e Colômbia no centro da ofensiva
Ginn aponta que México, Colômbia e Brasil concentram os casos mais avançados e preocupantes. "No México, os cartéis utilizam drones para realizar ataques há pelo menos cinco ou seis anos", diz o especialista. "Grupos criminosos agora usam drones para monitorar patrulhas policiais, lançar artefatos explosivos improvisados contra rivais ou forças de segurança e dar suporte a operações de contrabando de migrantes ao longo da fronteira com os EUA."
David Mora, analista sênior do Crisis Group especializado no México, confirma a tendência. "Certamente houve um aumento no México. Desde drones pequenos usados para vigilância — o que é altamente eficaz para grupos criminosos — até drones maiores e mais sofisticados, com maior capacidade de carga, aos quais são acoplados explosivos."
Tanto a Marinha quanto o Ministério da Defesa do México confirmaram à CNN um aumento nas apreensões de drones no último ano. Na Colômbia, o presidente recém-empossado enfrenta o desafio crescente de grupos armados que também recorrem à tecnologia. A Guatemala apresenta "uso emergente ligado a conflitos transfronteiriços entre cartéis", enquanto a Venezuela mostra "indícios iniciais por meio de apreensões e casos de posse", segundo Ginn.
Dispositivos comerciais adaptados para fins letais
O que mais preocupa especialistas é a acessibilidade dos equipamentos. "Eles adaptam drones comerciais, como os usados para entregas de encomendas, para transportar explosivos. Alguns têm capacidade de carga extremamente alta. E, embora não tenham um grande alcance, isso também está mudando", explica Mora.
Os dispositivos podem ser adquiridos pela internet, o que reduz a barreira de entrada para grupos criminosos de menor porte. Ginn ressalta que a disseminação foi excepcionalmente rápida: "Poucas inovações se espalharam tão rapidamente em conflitos e no crime organizado quanto os drones."
Focos regionais no México
Mora identifica Sinaloa como o estado mexicano com maior concentração de relatos sobre drones, em meio às disputas internas do cartel que opera na região. Michoacán também aparece como área de uso intenso, principalmente para controle territorial e confrontos entre grupos. Em Tamaulipas, estado fronteiriço, o uso está mais associado à vigilância. A InSight Crime acrescenta Chihuahua e Guanajuato à lista de zonas com operações crescentes.
O uso na fronteira entre México e EUA inclui ainda o suposto tráfico de cargas ilícitas por via aérea. O governo Trump investiu em tecnologia para combater o problema: na semana passada, forças norte-americanas utilizaram pela primeira vez um sistema a laser para abater três drones supostamente ligados a cartéis mexicanos que sobrevoavam proximidades da fronteira com o Texas. Autoridades mexicanas, por sua vez, minimizaram a questão.
Profissionalização com apoio externo
A InSight Crime aponta ainda que grupos criminosos mexicanos "têm buscado a expertise de ex-militares colombianos para aprimorar e profissionalizar o processo" de adaptação dos dispositivos para uso ofensivo — indicativo de que a transferência de conhecimento entre organizações criminosas de diferentes países já é parte da evolução tecnológica do setor.
As forças de segurança da região tentam acompanhar o ritmo dessa evolução, mas os especialistas consultados avaliam que a lacuna entre capacidade ofensiva dos grupos criminosos e resposta institucional ainda é significativa.
Source: Google News BR — Crime