Duarte Lima rastreado por três telemóveis nas 45 horas antes do crime no Rio
A polícia portuguesa e brasileira reconstruiu os movimentos de Duarte Lima através de três números que ele usou antes do assassinato de Rosalina Ribeiro em dezembro de 2009.

Três telemóveis desconhecidos traem o percurso do advogado no Brasil
Seis de dezembro de 2009, véspera do crime. A sala de espetáculos do Arouca Barra Clube, na Barra da Tijuca, está cheia. Rosalina Ribeiro assiste ao concerto de Maria Alcina, que comemora 50 anos de carreira. A convite da família da fadista, Rosalina esteve presente com outra amiga, Rosemary Spínola. Ao sair, pediu à cantora para almoçar juntas na quarta-feira: "Eu quero lhe falar muitas coisas. Precisamos conversar muito", disse-lhe. Alcina aceitou de imediato.
Nessa mesma noite, Rosalina falou com Rosemary sobre o que a perturbava há semanas. Pediu-lhe que a acompanhasse ao encontro marcado para o dia seguinte com o advogado Duarte Lima — o homem que, segundo o Observador, viria a ser o principal suspeito do seu assassinato. Rosemary recusou: já tinha compromissos. "Ela disse pra mim que era sigiloso, que ela não podia falar com ninguém", recordou a amiga.
O telemóvel pessoal que desapareceu
A investigação tinha já alguns meses quando os inspetores Aurélio Nascimento e Rogério Lima se debruçaram sobre um dado perturbador: o telemóvel pessoal de Duarte Lima não registou qualquer atividade em território brasileiro nos dias 5, 6, 7 e 8 de dezembro de 2009. As operadoras brasileiras tinham registo do mesmo número durante outras viagens do advogado ao país. Desta vez, o aparelho estava desligado — ou tinha ficado em Portugal.
O problema era que Rosalina tinha dito às amigas que falara ao telefone com o advogado. Alguém havia ligado. A questão era: de que número?
Quatro chamadas poucos minutos antes de ela sair
A análise das chamadas recebidas e efetuadas a partir do telefone de casa de Rosalina revelou dois números desconhecidos. O primeiro era um cartão pré-pago português. A partir desse número foram feitas quatro chamadas para a habitação de Rosalina no dia 7 de dezembro, as últimas delas poucos minutos antes de ela sair para o encontro com o advogado. "É plausível considerar, pelo tempo de duração da chamada e horário, que o interlocutor poderia estar avisando a sua chegada ao local do encontro", escreveram os investigadores no relatório.
O segundo número era de uma operadora suíça. Para além de contactos com Rosalina, esse número ligou também várias vezes para o motorista de Duarte Lima e para um telemóvel brasileiro registado em nome de Marlete Oliveira, natural de Belo Horizonte e residente em Portugal, que mantinha uma relação com o advogado.
O terceiro número e o erro que selou a investigação
Os investigadores identificaram ainda um terceiro número, relacionável com Duarte Lima por um detalhe técnico: havia sido ativado no mesmo local e à mesma hora que o telemóvel suíço, durante a viagem do advogado entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Esse dado permitiu localizá-lo geograficamente com precisão.
A coincidência mais reveladora, porém, foi outra: os dois números que ligaram a Rosalina antes de ela sair de casa na noite do crime partilhavam o mesmo prefixo — 91171. Apenas os quatro dígitos finais divergiam.
Os três telemóveis juntos — o cartão pré-pago português, o número suíço e o terceiro número associado à mesma rota — permitiram à polícia reconstruir o percurso de Duarte Lima no Brasil nas 45 horas que antecederam o crime. Para os inspetores, o facto de o advogado ter evitado usar o telemóvel pessoal constituiu o primeiro grande erro da sua estratégia.
A origem do número suíço
A investigação concluiu que o número de operadora suíça terá sido fornecido a Duarte Lima por Michel Canals, gestor da UBS e arguido no processo Monte Branco — a megaoperação judicial que investigou crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, e que gerou alguns dos maiores processos de criminalidade económico-financeira em Portugal.
O levantamento do sigilo telefónico junto das operadoras brasileiras foi pedido logo no início da investigação. Das longas listagens de números recebidas, os investigadores destacaram progressivamente os contactos com origem nos três telemóveis que acabaram por se tornar o eixo central da reconstrução dos movimentos do advogado.
---
"As Sombras de Duarte Lima" é uma série de seis episódios dos Podcast Plus do Observador, narrada por João Reis com banda sonora original de Filipe Raposo.
Source: Observador