Flávio Bolsonaro foge para os EUA após perder eleições e ignorar ordem de entregar passaportes

O senador viajou via Argentina para os Estados Unidos horas depois de a Polícia Federal pedir medidas cautelares contra ele. Flávio é investigado por corrupção e branqueamento de capitais.

Flávio Bolsonaro foge para os EUA após perder eleições e ignorar ordem de entregar passaportes

Fuga do senador: de Buenos Aires aos EUA em menos de 24 horas

Sete minutos após a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro para Lula da Silva, a Polícia Federal (PF) enviou ao gabinete do juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, um pedido de medidas cautelares contra o senador. A entidade apontava risco concreto de fuga. Moraes acatou os pedidos sem consultar a Procuradoria-Geral da República, segundo informações do jornal O Globo, que detalhou as evidências constantes no documento policial.

Flávio Bolsonaro está a ser investigado em dois processos distintos. O primeiro envolve o financiamento do filme Dark Horse, dedicado à vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. O segundo diz respeito a um alegado esquema multimilionário com o advogado Willer Tomaz. As autoridades apontam-no como um dos alegados envolvidos em corrupção e branqueamento de capitais.

O caso Tomaz e as "estruturas no exterior"

A situação de Tomaz é descrita pela PF como um dos fatores de risco. O jurista terá protagonizado uma "evasão bem-sucedida" e estará a viver nos Estados Unidos — supostamente na Florida — para escapar a uma ação penal. É precisamente na Florida que Flávio desembarcou na noite de terça-feira.

A Polícia Federal indicou ainda a existência de "estruturas já estabelecidas no exterior" que permitiriam a "permanência prolongada" do político nos EUA, e referiu o "expressivo poderio económico" dos envolvidos como elemento adicional que justificava as medidas preventivas.

O dinheiro do Dark Horse

Os investigadores analisam o "real destino" dos valores transferidos por Daniel Vorcaro para, alegadamente, financiar o filme. O orçamento da produção — cerca de 24 milhões de dólares — é descrito como inédito para uma obra cinematográfica no Brasil. O dinheiro terá sido enviado do Brasil para um fundo gerido por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, sendo depois repassado à Go Up, produtora da longa-metragem.

Os investigadores suspeitam que parte desses fundos possa ter sido utilizada por Eduardo Bolsonaro para financiar a sua vida nos EUA. O antigo deputado perdeu o mandato no final de 2025 e está desde então sem cargos públicos.

A ordem ignorada e a fuga

Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse os seus passaportes num prazo de 24 horas. O senador foi intimado na segunda-feira — segundo ele próprio, quando saía da residência de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliária por tentativa de golpe de Estado.

"A decisão de Alexandre de Moraes baseou-se numa fala do Eduardo de 23 de outubro, que eu deveria deixar o país se perdesse a eleição", alegou Flávio. "Nunca pensei em sair do país. Vou entregar os meus passaportes e defender-me desta aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar."

O senador não entregou os documentos, que já foram cancelados pela PF. Menos de 12 horas depois, o portal argentino Infobae noticiou que Flávio havia deixado o Brasil em direção à Argentina, de onde embarcou para os EUA. A informação foi inicialmente negada por aliados, que acabaram por confirmar a fuga.

"Até compreendo caso Flávio tenha saído do Brasil", declarou Rogério Marinho, líder do Partido Liberal no Senado e coordenador da candidatura presidencial de Flávio. "Não digo que concordo porque não fui consultado."

Vistos americanos e alegado envolvimento do Departamento de Estado

O político chegou aos Estados Unidos acompanhado da família. Todos receberão vistos do Departamento de Estado norte-americano que permitem a permanência em solo americano, segundo CNN Portugal.

Aliados citados pela Folha de São Paulo afirmam que o Departamento de Estado dos EUA participou ativamente na articulação da saída de Flávio do Brasil. Donald Trump não felicitou Lula da Silva pela vitória eleitoral e referiu, sem apresentar provas, por duas vezes que o resultado parecia ter sido fraudado.

Fraude eleitoral: alegações sem provas repetem padrão de 2022

As alegações de fraude são recorrentes na política brasileira desde 2022, quando Jair Bolsonaro lançou uma campanha sistemática de descrédito das urnas eletrónicas. "Pelas provas que tenho nas minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno mas, no meu entender, teve fraude", afirmou Bolsonaro em 2020, citado pela Folha de São Paulo.

Essas provas nunca foram apresentadas. Mensagens obtidas no telemóvel de Mauro Cid, tenente-general e antigo braço direito do ex-chefe de Estado, demonstram que aliados não encontraram quaisquer sinais de fraude após a votação de 2022. Os resultados das eleições do último domingo foram reconhecidos por Portugal, pelo Tribunal Superior Eleitoral e pelo próprio Partido Liberal, do qual a família Bolsonaro faz parte.

Uma família com histórico de fugas

Esta não é a primeira vez que um membro da família Bolsonaro ou um aliado político abandona o Brasil perante pressão judicial. Em 2024, Jair Bolsonaro refugiou-se na embaixada da Hungria para evitar uma possível detenção. No ano seguinte, foi condenado por liderar uma organização criminosa armada que tentou subverter os resultados eleitorais de 2022. No seu telemóvel foi encontrado um pedido de asilo à Argentina, que não chegou a ser utilizado.

Alexandre Ramagem, também condenado no processo do golpe de Estado, é outro nome que segue o mesmo padrão. O político foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) e liderou o que ficou conhecido como a ABIN Paralela, estrutura responsável por monitorizar opositores políticos da extrema-direita.

Source: CNN Portugal

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