Preso 'braço financeiro' de fraude bilionária em licitação do lixo de Bauru
O Gaeco prendeu Jonathan Moga Pinto, diretor de empresa apontada como fachada para repasse de propinas na licitação de R$ 5,2 bi de resíduos em Bauru.

Terceira fase da Operação Cavalo de Troia mira 'braço financeiro' do esquema em Bauru
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) prendeu, na última sexta-feira (23), Jonathan Moga Pinto, apontado pelo Ministério Público de São Paulo como o "braço financeiro" do esquema que fraudou a licitação bilionária de gestão de resíduos sólidos em Bauru (SP). A prisão ocorreu na capital paulista, onde um carro e duas motos foram apreendidos. A operação é a terceira fase da Operação Cavalo de Troia, conforme reportou g1.globo.com.
Jonathan Moga Pinto é diretor da empresa Core Intermediações e Assessoria LTDA. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos simultaneamente na sede da firma, identificada pelo Gaeco como intermediária no pagamento de vantagens indevidas na concessão do serviço de coleta de lixo no município.
Nota fiscal de R$ 750 mil abriu caminho para a investigação
A investigação sobre a Core teve início durante a segunda fase da operação, realizada na semana anterior, que resultou na prisão de Renato Purini — ex-secretário municipal de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). Na ocasião, os investigadores apreenderam uma nota fiscal de R$ 750 mil emitida em favor da empresa, documento que também aparecia em mensagens interceptadas entre os suspeitos.
"Essa frente investigativa foi aprofundada após a apreensão, na fase anterior da Operação Cavalo de Troia, de uma nota fiscal emitida pela empresa que estaria intermediando as propinas. As diligências realizadas posteriormente identificaram outros pagamentos expressivos em favor da mesma empresa", informou o Ministério Público de São Paulo em nota.
Empresa criada com capital reduzido e sem funcionários
De acordo com o MP-SP, a Core Intermediações foi constituída em agosto de 2025 por Kauê Tadeu Daher Crudeli, com capital social reduzido e sem nenhum funcionário registrado. A atividade inicial declarada era consultoria em gestão empresarial; posteriormente, foram adicionados serviços de seguros, previdência e saúde.
A promotoria apontou que a empresa e seu fundador mantinham vínculos diretos com o advogado Marcos Libanore Caldeira, indicado como intermediário dos repasses feitos pela concessionária Estre Ambiental a Renato Purini.
"A constituição recente da empresa, o reduzido capital social, a ausência de funcionários e a falta de correspondência aparente entre as atividades dos responsáveis e o serviço descrito no documento fiscal são elementos suspeitos que reforçam a incompatibilidade entre o serviço contratado e a empresa", justificou o órgão.
Transferências de R$ 975 mil no mesmo dia em que Pinto assinou como titular
Segundo as investigações, Jonathan Moga Pinto assumiu a direção da Core em dezembro de 2025, período que coincide com reuniões estratégicas entre os envolvidos no esquema. Documentos indicam que ele assinou como titular da firma em 19 de dezembro — mesma data em que a Estre Ambiental efetuou repasses de R$ 750 mil e de R$ 225 mil para a empresa.
Os valores suspeitos identificados pela investigação superam R$ 4 milhões, por meio de contratos e notas fiscais cuja prestação de serviço nunca foi comprovada. Para o MP, a estrutura empresarial foi montada para a "simulação de contratações e emissão de notas fiscais representativas de serviços não prestados".
Bloqueio de R$ 20 milhões atinge quatro investigados
A Justiça determinou o bloqueio de bens e ativos financeiros no valor de R$ 20 milhões dos quatro investigados: Renato Purini, Marcos Libanore Caldeira, Jonathan Moga Pinto e Kauê Tadeu Daher Crudeli. As ações contaram com apoio da Polícia Militar.
A apuração indica que agentes públicos e representantes de empresas privadas teriam atuado em conjunto para direcionar uma licitação estimada em mais de R$ 5,2 bilhões, com duração prevista de 30 anos.
Origem da investigação: ameaças a catadores de recicláveis
A primeira fase da Operação Cavalo de Troia foi deflagrada em 9 de setembro de 2026. A segunda etapa, em 16 de outubro, resultou na prisão de Renato Purini. O Ministério Público já apresentou denúncia contra seis investigados da fase inicial, que se tornaram réus no processo.
As apurações tiveram origem em suspeitas relacionadas a ameaças contra catadores de materiais recicláveis em Bauru. O MP investigava possíveis irregularidades envolvendo a Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam), que mantinha contratos com a prefeitura para serviços de coleta seletiva.
Segundo as investigações, Valdomiro Pereira da Silva Filho, empresário e marido da então presidente da associação, Gisele Moretti, teria utilizado sua influência para intimidar trabalhadores. A análise de conversas e ligações do casal levou os investigadores a identificar indícios de outras irregularidades, incluindo possíveis pedidos de propina e interferências na futura concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos — dando origem a duas frentes de investigação paralelas.
Source: Google News BR — São Paulo