Crianças vítimas de extorsão digital recorrem à polícia antes de contar aos pais

Em dez dias, o Noad da Polícia Civil de SP recebeu 36 denúncias de jovens sobre chantagems digitais com fotos íntimas e dados pessoais.

Crianças vítimas de extorsão digital recorrem à polícia antes de contar aos pais

Menores denunciam chantagem digital à polícia sem avisar a família

Crianças e adolescentes vítimas de extorsão digital têm acionado a polícia por conta própria — muitas vezes antes de informar os próprios pais sobre o que aconteceu. Conforme relata www1.folha.uol.com.br, os relatos chegam ao Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), da Polícia Civil de São Paulo, e partem de vítimas a partir dos dez anos de idade.

Nas chantagens, os agressores utilizam fotos íntimas e dados pessoais vazados para exigir transferências via Pix ou impor desafios graves, como automutilação, violência contra animais e ameaças a escolas.

Aumento brusco das denúncias após divulgação do canal

O Noad passou a divulgar seu canal de denúncias em 4 de outubro. Em dez dias, foram registrados 36 casos: 35 partiram dos próprios jovens e apenas um dos pais. Antes disso, o núcleo recebia cerca de cinco denúncias por semana.

Nos episódios em que a equipe conseguiu contatar as famílias, os responsáveis ainda desconheciam as ameaças relatadas pelos filhos.

"Eles se sentem muito mais à vontade para falar com um policial que nunca viram por email do que dentro de casa", afirma a delegada Lisandrea Salvariego Colabuono.

Adolescente de 13 anos pediu ajuda por email com medo de represálias

Em um dos casos acompanhados pelo núcleo, um adolescente de 13 anos enviou uma denúncia relatando medo e pedindo orientação sobre o que fazer. Na mensagem, à qual a Folha teve acesso, ele descreveu que um agressor exigiu dinheiro via Pix para não divulgar suas fotos íntimas e dados pessoais da família. O jovem afirmou ter guardado registros das conversas como prova e procurado o Disque 100 antes de acionar o Noad.

Para Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, a escolha reflete o receio de julgamento e punição dentro de casa. "Muitas vezes não é uma questão de confiar mais num desconhecido, mas de ter menos medo da reação dele", diz.

Os jovens temem decepcionar os pais, perder o celular ou ser culpabilizados, segundo Scavacini. "A chantagem se alimenta do medo. O agressor faz a vítima acreditar que, se contar, a consequência será pior."

Caso na capital paulista aponta suspeita de uso indevido de sistema policial

Em outro caso registrado na capital paulista, o pai de uma adolescente de 13 anos descobriu a chantagem ao verificar o celular da filha. Em boletim de ocorrência de junho obtido pela Folha, ele relata ter encontrado mensagens com instruções para aliciar meninas e conteúdos de automutilação em plataformas como WhatsApp, Telegram e Discord.

Após confrontar um dos suspeitos, o pai passou a receber ameaças de outros dois números. O boletim aponta ainda suspeita de uso indevido de um sistema da Polícia Científica para consulta de dados empregados nas extorsões. O caso foi encaminhado à Corregedoria da Polícia Civil.

A delegada Colabuono afirma que a investigação identificou um dos suspeitos, mas a proteção da adolescente exigiu novas intervenções: após os pais retirarem o celular, a equipe constatou que a jovem continuava acessando as redes por um tablet.

Scavacini reforça que medidas protetivas devem ser construídas em conjunto com o adolescente. "Simplesmente confiscar o celular pode fazer com que a vítima se sinta duplamente punida", afirma.

Aliciamento pode começar em jogos e redes sociais

O aliciamento pode ter início em qualquer aplicativo ou jogo interativo, como Instagram, TikTok, Roblox, Free Fire e Discord, segundo a polícia. A exposição de dados pessoais é tratada pelos investigadores como alerta vermelho na avaliação do risco de violência.

Em resposta à Folha, as plataformas afirmaram adotar medidas de segurança e cooperar com autoridades. A Roblox citou exigência de checagem de idade para o chat, controles parentais e ferramentas de denúncia. O TikTok afirmou restringir mensagens diretas para menores de 16 anos e encaminhar casos de exploração sexual à ONG americana NCMEC (Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas). O Discord disse compartilhar dados proativamente com autoridades brasileiras para apoiar prisões. O Telegram afirmou remover conteúdos nocivos diariamente e atender a pedidos de órgãos do país.

Orientações da polícia e sinais de alerta para famílias

O Noad atende casos de todo o Brasil. Ao identificar um menor de 18 anos, a equipe busca a família, aciona a delegacia da área e orienta a formalização do boletim de ocorrência para dar andamento ao inquérito e identificar o autor.

A orientação da polícia é cortar contato com o agressor, não cumprir exigências e registrar denúncia também na própria plataforma. Mensagens e identificadores de perfil devem ser preservados. A polícia ressalta que vítimas ou familiares jamais devem baixar ou compartilhar materiais de violência sexual infantil para encaminhar denúncias.

A delegada destaca que a primeira reação dos pais costuma ser de incredulidade, e que os investigadores orientam a família a não julgar e a acolher a vítima para que o relato ocorra sem bloqueios.

Scavacini recomenda atenção a sinais como alterações no sono, isolamento, ansiedade, medo constante, queda no rendimento escolar e irritabilidade. "Crianças e adolescentes precisam saber que podem pedir ajuda mesmo quando fizeram algo que os pais não aprovam", afirma a psicóloga.

Source: Google News BR — São Paulo

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