Burlada em 400 mil euros por falsa taróloga: "Se me contassem, eu dizia que era mentira"

Uma mulher perdeu 400 mil euros para um casal de burlões sediado no Brasil que se apresentava como taróloga nas redes sociais. O casal foi detido no Porto em outubro pela Polícia Judiciária.

Burlada em 400 mil euros por falsa taróloga: "Se me contassem, eu dizia que era mentira"

Vítima de burla esotérica perdeu 400 mil euros durante meses de manipulação emocional

Uma mulher identificada apenas como Vitória — nome fictício — foi burlada em 400 mil euros por uma alegada taróloga que a contactou através do Instagram. Em entrevista à CNN Portugal, Vitória descreve como um período de fragilidade emocional e solidão a tornou vulnerável a uma esquema prolongado de manipulação financeira. "Se me contassem a minha história, eu dizia que era mentira", afirma.

O caso tornou-se público no início de outubro, quando a Polícia Judiciária anunciou a detenção de um casal de nacionalidade brasileira no Porto. O casal vivia no Brasil e deslocava-se a Portugal por curtos períodos. A mulher, referida como Dora — também nome fictício —, promovia serviços esotéricos nas redes sociais e num site, apresentando-se como taróloga com poderes especiais.

Do Instagram ao WhatsApp

Vitória conheceu Dora através do Instagram. Após uma ou duas conversas na plataforma, a comunicação transitou para o WhatsApp, com mensagens, chamadas telefónicas e vídeochamadas. Dora apresentava-se como "simpática e de confiança" e falava sobre os seus alegados poderes espirituais.

A ligação começou em janeiro e prolongou-se até à detenção de Dora e do marido, no Porto, em outubro. A promessa era sempre a mesma: devolver o dinheiro enviado por Vitória, que precisava de "ser abençoado" e de "passar por um processo". No início, as quantias mais pequenas eram efetivamente devolvidas, criando uma aparência de legitimidade. Com o tempo, os pedidos foram aumentando — de transferências bancárias passaram a exigências em numerário —, as devoluções foram sendo adiadas e as justificações variavam, envolvendo frequentemente novos "trabalhos" que era necessário realizar sob pena de "consequências pessoais e afetivas".

Vitória não tem dúvidas de que a estratégia era deliberada. "A intenção era baralhá-la", diz, para que deixasse "de ter noção do dinheiro que lhe tinha dado".

O momento da suspeita

O ponto de viragem ocorreu durante uma visita ao Porto. "Ela dizia que me ia devolver tudo e fomos para um apartamento. Ela disse que era o apartamento dela", recorda Vitória. Ao entrar na casa de banho, não encontrou pasta de dentes, champô nem qualquer objeto pessoal. "Não havia nada que indicasse que ela estava a viver ali." Pouco depois, Dora pediu mais dinheiro. "Foi quando eu entendi: 'isto não pode ser bom'."

Seguiu então o conselho de uma advogada, Núbia Alves, que a acompanhou no processo. Manter a conversa com Dora foi difícil, mas era necessário garantir que esta regressava a Portugal para ser detida pelas autoridades.

Fragilidade como porta de entrada

Vitória descreve o período em que tudo começou como "uma péssima fase". Habituada a gerir pessoas e a manter controlo na sua atividade profissional — que prefere não revelar —, ainda lhe é difícil explicar o que aconteceu. "Como estava numa situação de perda, quem me conhece... Isto não tem nada a ver comigo", desabafa.

A solidão foi determinante. Vitória recorda a morte da mãe como outra fase difícil da sua vida, mas nessa altura tinha o ex-marido, as filhas e os amigos por perto. Desta vez, "foi uma altura em que eu não tinha ninguém". Admite alguma "vergonha", porque sempre se considerou uma pessoa cuidadosa — chegou até a impedir que uma funcionária sua fosse enganada numa tentativa de crédito fraudulento.

Refere também uma experiência anterior com serviços esotéricos, há mais de dez anos, motivada por uma doença grave. Nessa ocasião, "a pessoa foi honesta": quando Vitória perguntou quanto devia, a resposta foi "dá o que quiser, se quiser". Para Vitória, aquilo foi "um milagre". A experiência positiva pode ter contribuído para a confiança depositada em Dora.

Detenção e antecedentes criminais

O casal foi detido pela Polícia Judiciária no Porto em outubro, com colaboração das autoridades brasileiras. Segundo a PJ, exibiam nas redes sociais "um estilo de vida altamente luxuoso" associado a "manifestos sinais de riqueza". A mulher já tinha sido detida no Brasil em 2015 por suspeitas de crimes da mesma natureza, sem ter chegado a julgamento.

Ambos permanecem em prisão preventiva. A mãe de Dora deverá também ser constituída arguida, uma vez que parte das verbas de Vitória passaram pelas suas contas. As autoridades identificaram ainda contas bancárias do casal em vários países.

"Está nas mãos de Deus"

A advogada Núbia Alves, que representa Vitória, descreveu à CNN Portugal o estado da cliente quando a procurou: "confusa, claramente deprimida e com muito medo de enfrentar a realidade". Alves não revelou pormenores da investigação em curso.

Quanto à possibilidade de recuperar os 400 mil euros, Vitória é lacónica: "Está nas mãos de Deus. Eu tenho muita fé."

Source: CNN Portugal

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